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Porto Alegre X Davos: um outro Mundo é possível!
O significado histórico do Fórum Social Mundial pode ser avaliado ao compará-lo ao Fórum Econômico Mundial realizado no mesmo período e há mais de trinta anos, na cidade de Davos, Suíça. Lá, reuniu-se a cúpula das empresas transnacionais mais poderosas do mundo, assessorada por um seleto grupo de acadêmicos e intelectuais, ministros, tecnocratas e centenas de jornalistas da mídia internacional.
O clima do encontro, contudo, foi o de uma fortaleza sitiada e protegida por tropas especializadas da mais antiga democracia do mundo moderno, que usaram cercas de arame farpado e carros blindados equipados com canhões lançadores de jatos de água, para defender o Fórum Econômico contra os manifestantes que chegaram do mundo todo. Ao contrário, o Fórum Social Mundial de Porto Alegre desenrolou-se em clima de festa, na mais ampla liberdade para todos os seus participantes e, mesmo para eventuais vozes discordantes. Empresários e delegações de organizações não-governamentais, de movimentos sociais, urbanos e rurais; sindicalistas e parlamentares; intelectuais e estudantes, num total estimado em 18.000 pessoas foram participar, representando cento e vinte e dois países, neste evento cívico que marcou o início do século vinte e um.
Um encontro caracterizado pelo pluralismo de grupos étnicos, culturais, sociais e políticos de seus participantes, identificados com o objetivo de definir novos rumos para um mundo perigosamente fragmentado e conflituoso em conseqüência das políticas neoliberais globalizantes. À fragmentação e aos conflitos decorrentes de uma competição frenética, foi oposta a idéia de “um mundo só”, rico em sua diversidade, mas solidário e interdependente.
“Um outro mundo é possível”. Foi a palavra de ordem do encontro, assinalando o espírito de cooperação, solidariedade e de busca de justiça social de seus participantes. Enquanto o Fórum de Davos se esgotou na repetição da retórica dos economistas (aliás, caduca à luz da recessão nos Estados Unidos), o Fórum de Porto Alegre apresentou análises e debates profundos, multidisciplinares e guiados por uma visão sistêmica muito mais abrangente.
As premissas básicas que nortearam a própria elaboração do temário do Fórum Social e que permearam os debates nos auditórios e nas salas onde se realizaram as oficinas, foram:
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a globalização impulsionada pelas grandes corporações transnacionais e as políticas macroeconômicas impostas pelas instituições financeiras multilaterais, embora possam incrementar a produção de bens materiais e o volume do comércio internacional, geram também pobreza em escala e intensidade inéditas;
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a pobreza cresce mais do que a riqueza, particularmente nas sociedades de desenvolvimento “tardio”;
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o crescimento econômico sem distribuição eqüitativa torna-se o maior obstáculo ao desenvolvimento, porque além de não eliminar a pobreza, enfraquece os valores e o comportamento social ancorado na cooperação, solidariedade e responsabilidade coletiva, sem os quais a sociedade perde sua governabilidade.
Em vão procuram os “sábios” de Davos respostas aos dilemas e desafios do sistema capitalista globalizado, cuja gravidade não escapa aos olhos argutos do Presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, e de outros expoentes do mundo das finanças. Ainda que aumentassem e multiplicassem as iniciativas de caráter filantrópico e assistencial, inclusive das grandes empresas, nunca compensariam as barbaridades cometidas em nome de uma busca desenfreada de lucros. Impulsionados pela dinâmica de concentração e centralização do capital, os mecanismos econômicos do sistema – “a mão invisível” do mercado, a lei da oferta e demanda, o equilíbrio fiscal fictício e a balança comercial equilibrada (inatingível para a maioria dos países pobres) – revelam-se incapazes de reduzir as desigualdades gritantes dentre e dentro da maioria dos países.
A partir deste referencial, o Fórum Social organizou os debates em quatro grandes eixos, desdobrados em mais de 400 conferências, painéis e oficinas.
O primeiro grande tema – produção de riquezas e reprodução social – procurou analisar e interpretar o fosso crescente entre os países ricos e os pobres e a polarização entre e dentro as nações que leva à exclusão de parcelas crescentes da população mundial. Outro tema central neste debate foi a destruição desenfreada do meio ambiente alimentado por um consumismo irracional de uma minoria, cujos padrões de comportamento acabam sendo imitados pelo “efeito de demonstração” e pelo marketing maciço da mídia.
O segundo eixo dirigia suas preocupações para as questões de distribuição das riquezas e os mecanismos político-institucionais necessários para assegurar mais eqüidade e justiça social, condições básicas para proporcionar sustentabilidade e uma vida digna para todos. Tanto Amartya Sen – Prêmio Nobel de economia quanto James Wolfensohn – Presidente do Banco Mundial – identificam a pobreza e a falta de acesso a bens e serviços como causas principais dos desequilíbrios atuais no mundo. Para Wolfensohn, ...”a globalização não é um mal em si. O problema é a falta de direitos, de democracia, a pobreza e a desigualdade”.
Assim, os terceiro e quarto eixos do Fórum trataram da democracia, da sociedade civil, das relações de poder e das políticas públicas na sociedade planetária emergente. Como assegurar liberdade, igualdade e participação política em sociedades cada vez mais controladas por grupos e instituições poderosas, enquanto o Estado-Nação, historicamente o agente de extensão e garantia dos direitos democráticos da população, está se encolhendo diante as pressões do grande capital? Como mediar os conflitos cada vez mais acirrados, de caráter social, étnico, religioso, político, e que se travam em escalas local, regional, nacional e internacional? É possível construir um arcabouço institucional capaz de assegurar a negociação de conflitos em busca da paz?
Esta discussão encaminhou para os debates sobre o papel dos organismos internacionais no mundo planetário emergente e o papel e o poder dos Estados na Organização das Nações Unidas, atualmente caracterizada por uma extrema assimetria nas relações entre seus quase 200 países membros.
Por mais divergentes que possam ter sido as opiniões dos expositores e debatedores sobre temas específicos, ficou patente o compromisso com a democracia e a aspiração por uma participação efetiva dos cidadãos – jovens e adultos – na gestão da causa pública e na luta por um mundo sem excluídos, sem exploração dos mais fracos e sem discriminação dos “outros”.
Simultaneamente ao Fórum Social, Porto Alegre abrigou uma reunião de prefeitos de mais de 250 municípios, para debater seus problemas administrativos e financeiros, à luz de situações que beiram a calamidade pública, agravada pelas restrições orçamentárias impostas pelo Governo Federal. Ademais, o Fórum propiciou a oportunidade de uma reunião de quase 300 parlamentares, do Brasil e dos países vizinhos, buscando um entendimento em torno de problemas estruturais e institucionais comuns às sociedades latino-americanas. Mas, o que mais deve ter chamado a atenção dos observadores, infelizmente, não devidamente noticiada pela mídia, foi a presença maciça de milhares de jovens vindos de todo o país e dos rincões da América Latina, acampados em parques e participantes ativos nas conferências e oficinas. Sua presença e participação conferiram ao Fórum Social Mundial um ar de festa e de alegria, carregada de esperanças de um mundo melhor, mais justo e solidário.
Teria o Fórum de Davos algo semelhante a oferecer aos “danados da terra”? Os críticos “pragmáticos” de Porto Alegre cobram do Fórum Social resoluções e propostas concretas, embora não façam as mesmas exigências às luminares de Davos, apesar de 31 anos de reuniões assíduas. Ao defenderem a democracia formal representativa, parecem ignorar as manipulações mercadológicas e a influência do poder financeiro na compra de votos e nos resultados das eleições. Não se animam a propor medidas de controle efetivo sobre os movimentos especulativos do capital financeiro, tais como a “Tobin Tax”. Também parecem não perceber que a situação mundial está piorando com a globalização do capital financeiro e a hegemonia político-militar dos Estados Unidos.
A crítica do Presidente Fernando Henrique Cardoso revelou o seu desconforto diante a reação da sociedade civil brasileira frente a uma situação social muito precária e que nada tem da tão apregoada “Terceira Via”. Ao acusar o Fórum de gastar dinheiro público, parecia ignorar os patrocínios concedidos ao Fórum de Davos pelo governo suíço, sem falar dos desperdícios com a Feira de Hannover, os festejos dos 500 Anos do Descobrimento e da ridícula tentativa de mudar a logomarca da Petrobras.
Teria sido o medo de enfrentar as reivindicações sociais para que o governo altere suas políticas macroeconômicas e redefina as prioridades sociais?
“O mundo não é uma mercadoria” escrevia um dos jornais que circulavam no Fórum de Porto Alegre, refletindo o estado de espírito dos seus participantes. Além de abrir um espaço para o diálogo entre propostas e visões diferentes, a metodologia adotada pelo Fórum estimulava os participantes provindos de organizações de todo o mundo a proporem teses e relatarem experiências concretas de inovações em políticas públicas. Deste diálogo, baseado no consenso de “um outro mundo é possível”, surgirá um projeto de sociedade planetária, uma imensa rede internacional de solidariedade que irá superar o “ethos” do mercado, para abrir-se aos direitos de todos, fiel ao princípio da justiça social e dos direitos humanos.
P.S.: A ABDL esteve presente no Fórum, conduzindo uma oficina sobre seus programas de capacitação de lideranças – LEAD, Prolides e Pronord.
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