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Ser de esquerda no Século XXI
Antagônicas respostas foram dadas à pergunta "O PT ainda é um partido de esquerda?", por José Genoino e Plínio Soares de Arruda Sampaio Jr., na página 3 da "Folha de S.Paulo", de 12/02. Impossível saber qual dos dois se saiu melhor nos quesitos consistência e coerência. Todavia, não é a natureza dos respectivos argumentos que coloca em extremos opostos as opiniões do presidente nacional do PT e do professor de economia que conclama a militância a abandonar o partido. Absolutamente incompatíveis são seus entendimentos sobre o que vem a ser hoje um partido de esquerda.
Toda a exposição de José Genoino foi construída para explicar o conhecido processo de evolução para a prática social-democrata de partidos fundados por correntes anticapitalistas. Em geral, segmentos políticos que até podiam ter irrisória propensão revolucionária, mas que encontravam forte identidade e coesão naquela crença, aparentemente inabalável, de que o progresso da humanidade deveria passar pela transição a sociedades socialistas, e posteriormente até comunistas.
Ao longo do século passado, todos os grandes partidos desse gênero enveredaram por complexos processos adaptativos, que agora os fazem agir basicamente para que sociedades capitalistas sejam democráticas, minimizem a pobreza e reduzam as desigualdades. Exemplos, por tão abundantes, dispensam enumeração. Nesse contexto, o que mais distinguiu o brasileiro PT foi a excepcional rapidez da brusca conversão a essa desajeitada realpolitik com que enfrenta a atual etapa da globalização.
Quem precisou esperar que Lula chegasse ao Palácio do Planalto para compreender que o PT não era o partido de suas convicções socialistas ou comunistas, é porque mal teve tempo de perceber o que logo depois se tornou óbvio ululante. A "vitória do pragmatismo que desfigurou o partido", ou o "abandono da organização do povo, que constituía a essência da vida partidária" - como diz Sampaio Jr. - foram contrapartidas incontornáveis de sua capacitação para administrar da forma a mais responsável o tão execrado capitalismo brasileiro.
Achar que partidos social-democratas não são de esquerda é um direito dos organizadores do manifesto "Momento de Ruptura", tanto quanto é direito de qualquer pessoa razoavelmente informada preferir a argumentação oposta do saudoso Norberto Bobbio. Ela permite entender que, neste início de milênio, a esquerda mundial é quase que inteiramente social-democrata, mesmo quando tal etiqueta não parece conveniente, ou simplesmente não corresponde à retórica.
Por isso, bem mais importante do que perguntar se o PT é de esquerda, o que realmente interessa é saber qual o alcance histórico que ainda poderá ter o projeto social-democrata. E para procurar resposta a tal indagação, dificilmente se encontrará referência mais insuspeita do que o historiador marxista Eric Hobsbawm. Segundo ele, é bem provável que o debate que contrapôs capitalismo e socialismo, como pólos opostos mutuamente excludentes, seja entendido por gerações futuras como uma relíquia do Século XX. Pode revelar-se tão sem importância para o terceiro milênio quanto mostrou ser nos séculos XVIII e XIX o confronto entre católicos, e os vários reformadores nos séculos XVI e XVII, sobre o que constituía o verdadeiro cristianismo.
A rigor, o que os atuais órfãos do petismo se recusam a aceitar é que um possível futuro não-capitalista deixe de ser identificado com o ideário socialista. Ou que a nova utopia que certamente tomará o lugar do socialismo durante o Século XXI já esteja se insinuando pelo uso cada vez mais freqüente da expressão "desenvolvimento sustentável". Essa é a tese central de três novos livros *, que procuram esmiuçar o que realmente traz de novo esse mágico binômio, apesar de todas as ambigüidades, insuficiências e ilusões que certamente tende a transmitir.
Em vez de ver aí um "conceito", como tem sido comum, os três livros o consideram um enigma, que pode ser dissecado mesmo que ainda não resolvido. Procuram mostrar que a necessidade de colocar o qualificativo "sustentável" depois do substantivo "desenvolvimento" refletiu, em última instância, o crescente esgotamento de um dos principais valores dos tempos modernos, e não uma mera insuficiência da idéia de desenvolvimento.
Até hoje, não existiu diferença entre industrialismo e desenvolvimento. Pode-se dizer, inclusive, que o liberalismo e o socialismo foram as duas faces ideológicas dessa mesma moeda. E é essa a utopia que entrou em crise, depois de ter prestado grandes serviços, por dois séculos, aos mais diversos tipos de formações sociais. No chamado Norte, a crise da utopia industrialista já é profunda, mesmo que nos países do Sul ela certamente ainda possa ter muito futuro. E é crucial conhecer as razões de seu desabamento nas nações mais avançadas.
A indústria não poderia ter se afirmado sem a crescente racionalização do trabalho. Não faz mais do que uns 200 anos que o trabalho é considerado simultaneamente um dever moral, uma obrigação social e caminho natural da realização pessoal. Essa "ética do trabalho", que impregnou todas as sociedades modernas, tem três grandes alicerces: a) quanto mais um indivíduo trabalha, mais ajuda a melhorar a vida da coletividade; b) quem trabalha pouco ou não trabalha, prejudica a comunidade e não merece respeito; c) quem trabalha direito acaba tendo sucesso, e quem não o alcança é por sua própria culpa.
Acontece que essa ética está caducando. Deixou de ser verdade que para produzir mais é necessário trabalhar mais. Foi-se o tempo em que produzir mais significava, quase sempre, viver melhor. No chamado Primeiro Mundo já se rompeu essa ligação entre mais e melhor. As necessidades básicas dessas populações estão fartamente atendidas, e muitas das necessidades ainda insatisfeitas não exigem que se produza mais, mas sim que se produza de outra maneira, outra coisa, ou até que se produza menos.
* "Do global ao local" e "A História não os absolverá", da Editora Autores Associados; o livro "Desenvolvimento sustentável: o desafio do século 21" (Garamond), será lançado dia 7/3, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, após debate com Ignacy Sachs e Denise Hamú.
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