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Educação Ambiental, uma tarefa urgente: "alfabetizar" ambientalmente a todos

A conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada em 1977 em Tbilisi, na ex-União Soviética, definiu naquela época que o objetivo fundamental da educação ambiental é "Fazer com que os indivíduos e as coletividades compreendam a natureza complexa do meio ambiente natural e do criado pelo homem resultante da interação de seus aspectos biológicos, físicos sociais, econômicos e culturais e adquiram os conhecimentos, os valores, os comportamentos e as habilidades práticas para participar responsável e eficazmente na preservação e na solução dos problemas ambientais e na questão da qualidade do meio ambiente".

No Brasil, somente em 1988 com a nova constituição, a educação ambiental tornou-se incumbência do poder público, juntamente com a promoção da conscientização social para a defesa do meio ambiente. Leis federais, decretos, constituições estaduais, leis municipais, normas e portarias abrigam hoje dispositivos que determinam, em escalas variadas, a obrigatoriedade da educação ambiental. A efetividade de tais dispositivos esbarra porém, nos problemas estruturais e carência da educação formal no país. Muito embora muitas escolas estejam incorporando a temática ambiental entre as disciplinas não há uma política definida para a questão nem a nível nacional nem nos estado e muito menos nos municípios.

Se fizermos uma rápida análise nas escolas brasileiras de ensino fundamental, veremos que não é oferecido ao professor condições mínimas para desenvolver um trabalho sistematizado sobre o tema: falta de materiais didáticos, salários baixo, sobrecarga de trabalho, números excessivos de alunos na classe, além da falta de orientação e formação para se realizar um bom trabalho de educação ambiental. Dessa forma, o artigo 225 da constituição federal que estabelece que é dever do poder público "promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente", é contraditório ou no mínimo sem efeito, uma vez, que se nega às escolas e aos professores condições mínimas para que haja a incorporação da problemática ambiental na sua realidade do dia a dia.

Um professor que se formou há 15 ou 20 anos, quando estas questões ainda não estavam tão em evidência, necessita de um treinamento que o capacite para trabalhar a educação ambiental em uma perspectiva de cidadania que é exigida hoje. Infelizmente, as Universidades por estarem distantes do ensino básico e eximindo-se de sua responsabilidade social, não proporcionam tal treinamento aos professores do ensino fundamental e médio. Nessa realidade, o professor tem dificuldade para entender o assunto e acaba por não possuir uma clareza nem consciência das questões básicas que provocam a degradação ambiental, restando-lhe apenas uma visão simplista e ingênua da questão - não conseguindo entender que por de trás da degradação do meio ambiente existe uma lógica de um sistema econômico, social, político e cultural.

Para atingir seus objetivos, a educação ambiental exige uma sensibilidade especial para os processos que ocorrem na natureza e, principalmente, para uma melhor estruturação da sociedade como um todo. Logo, ela carece de um certo conhecimento articulado sobre a região que serve de suporte. É impossível realizar um projeto de educação ambiental exclusivamente atendendo à escala planetária ou à escala nacional. Pelo contrário à educação ambiental envolve todas as escalas. Começa em casa. Atinge a rua e a praça. Engloba o bairro. Abrange a cidade ou a metrópole. Ultrapassa as periferias. Repensa os destinos dos bolsões de pobreza. Penetra na intimidade dos espaços ditos "opressores". Atinge as peculariedades e diversidades regionais. Para só depois, integrar em mosaico, os espaços nacionais. E só assim a educação ambiental pode colaborar com os diferentes níveis de sanidade exigidos pela escala planetária.

Garantir a existência de um ambiente sadio para toda a humanidade implica em uma conscientização realmente abrangente, que só pode ter ressonância e maturidade através da educação ambiental. Um processo educativo que envolva ciência e ética e uma renovada filosofia de vida. Um chamamento à responsabilidade planetária dos membros de uma assembléia de vida, dotados de atributos e valores essenciais: capacidade de escrever sua própria história, informar-se permanentemente do que está acontecendo em todo o mundo; criar culturas e recuperar valores essenciais da condição humana. E acima de tudo, refletir sobre o futuro do planeta.

Para alcançar seus objetivos maiores, a educação ambiental defende uma somatória de sanidade. Sanidade do ar, sanidade das águas, sanidade das coberturas vegetais remanescentes, sanidade do solo e do sub-solo. E principalmente uma maior harmonia e menos desigualdades no interior da sociedade. A possibilidade de uma habitação, sadia e digna para todos. Um transporte coletivo menos sofrido. Condições sadias no ambiente de trabalho - nas fabricas e oficinas é necessário um ambiente que ajude a prolongar a vida e o bem estar de todos os membros da sociedade: crianças, velhos e adultos. Não se deve pagar um dinheiro extra a título de salário de insalubridade, quando se sabe que a continuidade dessa atividade, em condições ambientais precárias, é o caminho para a doença e o envelhecimento precoce, e a morte mais cedo. Há que exigir sim um ambiente o mais sadio possível, no interior de todas as instalações industriais. É imoral e desumano pagar um pouco mais para que as pessoas vivam menos.

Enfim, educação ambiental exige método, noção de escala; boa percepção das relações entre tempo, espaço e conjunturas; conhecimentos sobre diferentes realidades regionais; e, sobretudo, código de linguagens adaptadas às faixas etárias do aluno. É um processo que, necessariamente, revitaliza a pesquisa de campo, por parte dos professores e dos alunos. Implica em um exercício permanentemente da interdisciplinaridade.

A educação ambiental bem conduzida, colabora efetivamente para aperfeiçoar um processo educativo maior, sinalizando para a conquista ou reconquista da cidadania. É a nova ponte entre a sabedoria popular e a consciência técnico-cientifica.

O Papel da Escola na Educação Ambiental

A escola desempenha um dos papéis mais importantes nesse redirecionamento de nossa civilização. Afinal, a ela cabe informar, pesquisar e, o mais importante, formar os futuros gestores da sociedade humana. À escola compete:

- aprofundar estudos com relação ao funcionamento da natureza, que rodeia os educandos, incentivando-os a divulgar seus conhecimentos aos pais, irmãos, amigos, vizinhos, autoridades etc.

- Assumir uma prática condizente com seu verdadeiro papel de centro de irradiação de saber para toda a comunidade;

- organizar discussões entre o corpo docente, o corpo discente e a associação de pais e mestres sobre os problemas ambientais que mais de perto atinjam a comunidade;

- privilegiar os agentes culturais da comunidade, principalmente aqueles depositários da memória cultural, e os que vêem a natureza como elemento garantidor de sobrevivência e não como inimiga a ser vencida, dentro de uma perspectiva antropocêntrica e elitista: artesãos, agentes tradicionais de saúde, dirigentes religiosos, pesquisadores, trabalhadores rurais e urbanos. etc. devem ser chamados à escola para dissertar sobre suas experiências de vida e de trabalho;

- mostrar que a natureza íntegra permite a reprodução cultural e exemplificar com o caso da cultura negra, indígena e oriental, cujos cultos, ciências, manifestações artísticas e religiosas estão sempre referendados pela noção da integridade, unidade e harmonia com as leis da natureza.

- discutir os problemas dos ambientes familiares, escolares, e de trabalho dos pais e alunos, etc.

- possibilitar a criação de herbários e criatórios para a escola;

- disseminar idéias pacifistas e contrárias à violência social e ambiental;

- combater quaisquer tipos de preconceitos, sejam eles racial, social ou cultural;

- transferir uma ideologia e uma ética que conduzam as novas gerações a um tipo de comportamento menos individualista e mais comprometido com os aspectos sociais e com a percepção do outro e do entorno, inclusive comprometendo-as a serem responsáveis pela continuidade de suportes de vida para as futuras gerações.

10 de Maio, 2005
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