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Mercado atento ao Índice de Sustentabilidade Empresarial
A preocupação cada vez maior dos investidores em unir bons retornos com sustentabilidade e responsabilidade social está mexendo com o setor de fundos de investimentos, empresas e com a própria Bovespa. A bolsa encampou essa idéia e se prepara para lançar no começo do ano o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que será formado pelas companhias abertas com as melhores práticas sociais e ambientais. Os bancos e administradoras de recursos, por sua vez, já estão se mexendo para criar fundos com essas características e assim aproveitar a onda dos investimentos éticos para captar parte desses recursos.
Ao que tudo indica, haverá produtos para todos os gostos. Alguns gestores devem montar fundos que vão usar o índice da Bovespa como parâmetro. Enquanto outras assets preparam carteiras diferenciadas, com formas de identificar as melhores empresas desenvolvidas dentro de casa mesmo. As instituições guardam os novos produtos em segredo, para não jogar nas mãos dos seus concorrentes a fórmula das aplicações.
Segundo apurou o Valor um grande banco está estruturando um fundo ético, cujo lançamento provavelmente deve casar com a estréia do índice da bolsa, no início do próximo ano. Outros bancos se mostram interessados em ingressar nesse segmento, mas preferem esperar a estréia do novo índice para ver o seu desempenho frente a outros indicadores e a sua aceitação com os investidores para depois lançarem carteiras mais ajustadas ao interesse do mercado.
"Investimentos socialmente responsáveis e os próprios conceitos sobre o assunto ainda são muito novos no Brasil, é melhor esperar essa forma de analisar as empresas primeiro se consolidar na cabeça do investidor antes de sair lançando vários produtos do gênero", diz o superintendente de produtos de atacado do Itaú, Alexandre Zakia Albert. O Itaú e o ABN Amro são os únicos bancos que hoje oferecem fundos socialmente responsáveis, ou seja, que investem em ações de companhias que seguem os padrões sócio-ambientais.
Há uma outra categoria, de fundos filantrópicos, que as vezes se confunde com os éticos. Essas carteiras geralmente destinam parte da taxa de administração para projetos sociais. É o caso, por exemplo, de fundos do HSBC e da Caixa Econômica Federal. A principal diferença entre os dois tipos de carteiras é que os fundos filantrópicos beneficiam a imagem do banco, como uma instituição disposta a ajudar pessoas necessitadas, enquanto os fundos éticos possuem uma política de investir em companhias preocupadas com padrões socialmente responsáveis, diz o diretor de estratégia social da CorpGroup, Roberto Gonzalez, especialista no assunto. "O fundo filantrópico é mais uma peça de marketing do banco, já os éticos são os que realmente seguem os conceitos socialmente responsáveis", diz.
O fundo Itaú Excelência Social é um misto das duas práticas. Além de aplicar apenas em ações de empresas éticas, repassa 50% da taxa de administração para projetos sociais de organizações não-governamentais. Apesar de não ter planos de lançar novas carteiras no curto prazo, o Itaú deve aproveitar a criação do índice de sustentabilidade da bolsa para trocar o referencial ("benchmark") do fundo que hoje é o IBrX-50 pelo ISE. "Vamos propor isso na próxima reunião do conselho do fundo", diz Zakia. Esse grupo é formado por entidades como os institutos Ethos, Dom Cabral e Itaú Cultural.
Os planos do ABN também são de aproveitar o lançamento do ISE para divulgar mais fortemente os fundos Ethical I e II, os primeiros do gênero no mercado. A idéia, segundo o gestor Pedro Villani, é fazer uma campanha de marketing no momento em que a bolsa estiver divulgando o índice. Para o gestor, o histórico dos fundos nesses quase quatro anos de existência será o grande chamariz para novas captações. Desde a sua criação, em novembro de 2001, o Ethical I acumula valorização de 147,24% frente a uma alta de 120% do Índice Bovespa (Ibovespa). Já o Ethical II registra uma alta de 146,22% e o Ibovespa de 101,78% no período.
É inegável que os fundos éticos estão apenas engatinhando no Brasil, assim como os conceitos de sustentabilidade, que ganharam força recentemente, graças à iniciativa da bolsa de criar um indicador do desempenho das ações de empresas socialmente responsáveis. Segundo dados do site financeiro Fortuna, os fundos Ethical I e II juntos possuem patrimônio de R$ 73 milhões e os três fundos Itaú Excelência Social totalizam R$ 19,5 milhões, algo quase que insignificante frente ao patrimônio total de R$ 41,5470 bilhões do segmento de fundos de ações.
Mas o pequeno número de fundos não reflete apenas a novidade dos conceitos de governança entre os analistas. Também existe uma grande resistência por parte de alguns gestores em acreditar que as iniciativas socialmente responsáveis das empresas traduzem-se em lucros maiores e, consequentemente, em ações mais valorizadas pelos investidores.
Para o diretor de uma administradora de recursos de um grande banco, que prefere não ser identificado, é muito cedo para dizer que as empresas que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial apresentam um desempenho superior às companhias que fazem parte de outros índices da Bovespa.
Ele também acredita que ainda são muito vagos os benefícios que as empresas têm com essas práticas e, portanto, é difícil mensurar os ganhos para os acionistas. Ele afirma que até agora não sentiu interesse da parte de clientes institucionais por esse produto. "Temos um único fundo de pensão que nos proíbe colocar em sua carteira ações da Souza Cruz, mas para AmBev não há nenhum tipo de restrição."
Para ele, antes de lançar um índice com conceitos ainda tão incipientes no mercado, a Bovespa deveria se preocupar em criar outros índices setoriais, como de bancos, commodities e ajustar o Índice de Energia Elétrica (IEE), que dá pesos iguais a todas as ações, sem as ponderar por liquidez ou quantidade de ações disponíveis no mercado - "free float". "Novos índices setoriais seriam muito mais úteis do que um índice com uma metodologia que nem se sabe ainda a eficácia", conclui o diretor.
O gestor de uma outra asset é ainda mais taxativo ao dizer que fundos éticos são uma forma do banco fazer marketing da sua imagem com o dinheiro dos cotistas. Na visão dele, as práticas socialmente responsáveis podem dar resultados em países desenvolvidos, onde existe uma fiscalização efetiva contra o trabalho escravo e multas ambientais. "Em países emergentes, é muito custo ser socialmente responsável para pouco retorno", afirma.
Roberto Gonzalez rebate as críticas. Segundo ele, problemas trabalhistas e ambientais podem provocar passivos gigantescos para as empresas, em países desenvolvidos ou emergentes. "Evitar esses problemas não é ser bonzinho e sim trabalhar pelo melhor resultado da companhia", diz Gonzalez. As empresas também ganham de outras formas. As práticas responsáveis já se refletem nas vendas das companhias. Segundo ele, pesquisas mostram que 22% das pessoas das classes A e B se preocupam com as práticas das empresas na hora de consumir. O próprio Gonzalez, por exemplo, recentemente pesquisou como era o processo de produção das montadoras, antes de trocar de carro.
A visão de que o mercado não valoriza esse tipo de iniciativa é equivocada, segundo Gonzalez. A maior prova é o desempenho do Dow Jones Sustainability (índice americano formado por ações de empresas socialmente responsáveis) que nos últimos 11 anos acumula uma alta de 117,3% em dólar frente a uma valorização de 90,7% do Dow Jones tradicional. Um exemplo verde-amarelo são as ações da Natura. A empresa lançou ações na Bovespa a R$ 35, um valor considerado muito alto na época pela maioria dos analistas. Hoje, no entanto, as ações estão na casa dos R$ 73 e os profissionais continuam sem ter explicação para esse desempenho. Já para Gonzalez, essa valorização de quase 110% é em grande parte consequência das práticas socialmente responsáveis da empresa de cosméticos.
Fonte: Valor Econômico
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