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Encontro do G8 termina em brancas nuvens
Autor: ABDL

O G8 – grupo formado pelos sete paises mais ricos do mundo e a Rússia – reconheceu nesta sexta-feira (7) que o aquecimento global representa um "desafio a longo prazo" para o planeta. Apesar do reconhecimento do problema, a declaração conjunta divulgada após a cúpula do grupo acontecida semana passada em Gleneagles, Escócia, não estabelece compromissos e metas claras de redução das emissões dos chamados gases-estufa, responsáveis pelo aumento das temperaturas, para os países industrializados. Representantes dos movimentos ambientais criticaram o documento, classificando-o como muito genérico.

O comunicado fala sobre a necessidade de "agir desde agora para desacelerar e reverter o aumento dos gases que causam o efeito estufa" e exibe diversas cicatrizes da dura queda-de-braço ocorrida nos bastidores da negociação diplomática. Num parágrafo o G8 admite "saber" que o aumento da demanda por energia de combustíveis fósseis e outras atividades humanas contribuem para o aquecimento global.

Cravo e Ferradura – Segundo declarou o presidente francês, Jacques Chirac, durante o evento, a declaração final sobre o aquecimento global só foi possível devido a "uma mudança de atitude por parte dos Estados Unidos" em relação ao assunto. Como concessão a Washington, o documento afirma que "há incertezas relacionadas ao conhecimento da ciência sobre o clima". No entanto, a pressão francesa conseguiu incluir no texto que "já sabemos o suficiente para agir desde agora e desacelerar o aumento dos gases de efeito estufa".

De acordo com o próprio comunicado, essa “ação” deveria se traduzir em investimentos de U$16 trilhões dentro de 25 anos para a limpeza do sistema de global de energia, buscando tecnologias mais limpas e eficientes. Além disso, estabelece como “prioridade absoluta em todos os países” a “adaptação aos impactos da mudança climática”.

Para Chirac o principal mérito do encontro foi "restaurar o diálogo" com os Estados Unidos. Desde que se retirou do Protocolo de Kyoto em 2002, o governo W. Bush é o maior opositor do estabelecimento de políticas globais que enfatizem o corte nas emissões de CO2, sob a alegação de que controles rígidos sobre a poluição afetariam o desempenho da economia norte-americana. Os todos os demais paises do bloco – Alemanha, Canadá, França, Reino Unido, Itália, Japão e Rússia – ratificaram o protocolo.

Para o governo da maior economia do planeta e também maior poluidor mundial, com mais de um terço das emissões totais, o tema havia se tornado um verdadeiro tabu político. Indo contra o consenso científico internacional, os órgãos científicos ligados à Casa Branca vinham questionando tanto a existência do aquecimento global quanto as relações do fenômeno com as atividades humanas. A declaração do G8 restabelece uma língua franca a respeito do tema.

Mudança retórica – Apesar de ter reconhecido que, pelo menos “em parte”, as atividades humanas são responsáveis pelo aquecimento global, W. Bush continua afirmando preferir apostar no desenvolvimento de tecnologias ainda inexistentes capazes de limpar os poluentes a regular a emissão dos gases estufa.

O reconhecimento não reverte a posição dos Estados Unidos em relação à ampliação do Protocolo de Kyoto. Na opinião dele do presidente dos EUA, o acordo internacional que pretende reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 5,2%, em relação às taxas de 1990, até 2012 restringe o uso de energia.

ONGs – Organizações não-governamentais que enviaram delegações para acompanhar os debates avaliam que foi perdida uma oportunidade para estabelecer uma "agenda efetiva" de combate ao problema.

Segundo o Greenpeace, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os líderes da Índia, China, África do Sul e México enviaram uma “mensagem forte” ao entregar aos líderes do G8 um comunicado em que pediam maior empenho na ação internacional de combate as mudanças climáticas. Para os países em desenvolvimento é preciso fortalecer o Protocolo de Kyoto e que os países ricos concordem em compartilhar tecnologias com os mais pobres.

"Não há nada significativo no texto do G8 porque não conseguiram um acordo que demonstre a divisão entre os sete que ratificaram (o Protocolo de) Kyoto e os Estados Unidos", afirmou Jennifer Morgan, da WWF. Para conseguir a participação de Bush na declaração sobre mudança climática, um dos grandes acordos do G8, junto com a luta contra a pobreza na África, os sete tiveram que fazer importantes concessões aos Estados Unidos.

Bush "fez de tudo para desestimular a ação internacional sobre a mudança climática", criticou Tony Juniper, da organização Amigos da Terra Internacional. "O preço deste fracasso será pago pelos mais pobres do planeta, sobretudo na África", advertiu Tindale.

Declaração do G8 sobre mudança climática (pdf em inglês)

Plano de Ação do G8 sobre mudança climática (pdf em inglês)

Com informações: Estado e Folha

12 de Julho, 2005
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