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Estado do Mundo 2005
Publicação disponível gratuitamente no site do World Watch Institute / Universidade da Mata Atlântica: http://www.wwiuma.org.br/ Em 25 anos, 12 mil desastres relacionados ao clima causaram 620 mil mortes e uma perda de US$ 1,3 trilhão. A cada nome de furacão que surge, a cada rosto anônimo exibido no meio das ruas inundadas da costa do Golfo, o livro americano "Colapso", escrito pelo Prêmio Pulitzer Jared Diamond, se mostra mais atual do que nunca.
Lançado no Brasil pela editora Record, o best-seller conta a história de civilizações que usaram mal seus recursos naturais e desprezaram os sinais de desgaste enviados pelo meio ambiente. O fim de todas essas sociedades justifica o título da publicação: colapso. Diante desse desfecho, nunca é demais prestar atenção em todos os sinais de alerta. "Estado do Mundo 2005", livro que o Worldwatch Institute (WWI) lança na semana que vem, é mais uma advertência, que estabelece uma alarmante ponte entre a obra de Diamond e os dias de hoje.
Publicado pela principal organização na cruzada pelo desenvolvimento sustentável, o livro não tem o rigor estilístico de "Colapso", mas traz dados precisos. Destaca que furacões como o Rita e o Katrina fazem parte de um processo de degradação evolutivo. Em 25 anos, 12 mil desastres relacionados ao clima causaram 620 mil mortes e uma perda de US$ 1,3 trilhão. Somente nos últimos dez anos, o prejuízo é estimado em US$ 570 bilhões, excedendo o total das perdas ao longo do período de 1950 a 1989. E, nas duas últimas décadas, os danos financeiros anuais por causa de questões relacionadas ao clima cresceram 300%. Em 1980, a cifra era de U$ 26 bilhões. No ano passado, o valor chegou a US$ 104 bilhões. Somente o Katrina deve provocar um prejuízo de mais de US$ 100 milhões.
Nas últimas décadas, aumentou ainda o número de furacões nas categorias quatro e cinco, as mais elevadas, em virtude do aquecimento da água - Rita e Katrina, em parte, podem ser explicados pela temperatura da água do Golfo do México a 32º C e pela elevação no nível do mar. De 1995 a 1999, um recorde de 33 furacões na região do Atlântico atingiu os EUA. Não é só. Pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT) diz que os ventos dos furacões aumentaram 50% em 50 anos.
"A catástrofe a que assistimos na costa do Golfo é um sinal para que os tomadores de decisão do mundo acordem. Se o globo continuar o seu curso de destruição de terrenos alagadiços e a aumentar seu consumo de combustível fóssil, a nova geração poderá assistir a uma série de desastres naturais como o Katrina ganhando escala no século XXI", diz o economista e biólogo americano Christopher Flavin, Presidente do Worldwatch Institute. Flavin estará no Brasil na semana que vem para lançar o livro do WWI, na verdade, um relatório anual publicado há 24 anos consecutivos e traduzido para cerca de 30 idiomas.
Um dos maiores vilões da atualidade, quando o assunto é meio ambiente, é o Presidente Bush, que tem se recusado a assinar acordos internacionais para preservação do ecossistema, como o Protocolo de Kyoto. Em 2001, os EUA se retiraram das negociações, alegando que sua implementação prejudicaria a economia do país. Bush disse apenas ser favorável a reduções por meio de medidas voluntárias e novas tecnologias no campo energético. É muito pouco. O Protocolo de Kyoto, assinado por 141 países, estabelece metas para a redução de gases poluentes que, acredita-se, estejam ligados ao aquecimento global. Gases como o dióxido de carbono reteriam o calor na atmosfera, causando o chamado efeito estufa.
Caso não sejam tomadas medidas preventivas, o panorama para o futuro é catastrófico. Segundo Flavin, oponentes das ações de mudança climática, com seus recursos financeiros abundantes, adiaram a implementação dos limites para a emissão de dióxido de carbono em uma década. Essa decisão fez com que se aumentasse a emissão em 20% desde 1990. Outro dado assustador é que a queima de combustíveis fósseis, liderados pelo petróleo, liberou 160 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera apenas nas últimas três décadas.
Para reverter o quadro, o WWI propõe pontos essenciais para se pensar o ambiente:
Manter a integridade do ecossistema tem de ser prioritário
O desenvolvimento econômico e as políticas de destruição ecológica conduziram comunidades a um nível de vulnerabilidade perigoso. Esse contexto é agravado pelo rápido crescimento populacional nessas regiões, o que tem contribuído para as perdas econômicas por causa de catástrofes climáticas no mundo.
Evitar pensamento de curto-prazo
Durante os últimos anos, o governo americano desviou recursos de fundos de emergência em caso de desastres naturais para a guerra do Iraque, além de ter reduzido a proteção a terras alagadiças para incentivar o desenvolvimento econômico. Depois do Katrina e do Rita, o dinheiro ganho com as duas decisões anteriores não pagará as dívidas contraídas pelos dois furacões.
Promover a conexão entre a mudança climática e as catástrofes naturais
Apesar de tempestades não poderem ser definitivamente explicadas pela mudança de clima, cientistas concordam que o aquecimento da água é combustível para o aumento dessas tempestades. A temperatura da água e o nível do mar vão continuar aumentando, ampliando a vulnerabilidade de comunidades. O aquecimento global e a antecipação dos efeitos do ciclo hidrológico tornarão essas áreas mais frágeis ao poder das tempestades, inundações e secas.
Diversificar o suprimento de energia
O impacto econômico dos furacões está aumentado dia-a-dia, com consumidores ao redor do mundo pagando cada vez mais pelo combustível. Décadas de redução no investimento para se criar opções de novas fontes de energia levaram o mundo a ser dependente do petróleo e do gás natural que estão concentrados em algumas das regiões mais vulneráveis do planeta. A tragédia climática poderá ser evitada pela substituição do petróleo e do carvão, combustíveis fósseis, por fontes alternativas de energia renovável. É a melhor saída para romper a correia de transmissão do efeito estufa.
Efeito verde e amarelo
O Brasil pode ser um dos protagonistas nesta nova ordem natural. Com 16% das florestas e 21% de todas as espécies vegetais já identificadas no mundo, o país é essencial para a saúde biológica e ambiental. No desenvolvimento de energia renovável, tem a seu favor a experiência com uso de álcool como combustível automotivo. "O Brasil será a Arábia Saudita das energias renováveis", prevê Flavin.
Perspectivas econômicas existem. De acordo com o presidente do WWI, o mercado de energia renovável cresce em torno de 20% e 30% ao ano, e o preço das ações está em alta. Durante a década de 90, a energia eólica aumentou a uma taxa de 26% ao ano, enquanto a energia solar elevou-se em 17% ao ano. No mesmo período, o petróleo cresceu apenas 1,4% ao ano. O problema é que energia eólica e solar atualmente geram 1% da energia mundial. "No longo prazo, a biomassa poderá ser responsável por 50% ou mais dos combustíveis líquidos do mundo", prevê Flavin.
Para que as fontes de energia renovável cresçam, o WWI avalia que novas leis tenham de ser criadas e que a indústria seja estimulada a investir no segmento, justamente como a Alemanha fez com o vento, o Japão com o sol e o Brasil com o álcool. Mesmo sem grandes incentivos, empresas como General Electric, Dupont, Shell, Mistsubishi e Sharp estão entre as maiores companhias que ampliaram o negócio de energia renovável, totalizando investimento de US$ 29 bilhões no ano passado.
"No Brasil, a Petrobras está se tornando agressiva em pesquisa de energia renovável", afirma Flavin. Para ele, ao expandir os investimentos nesse mercado, a Petrobras pode capitalizar uma melhoria de sua imagem como empresa de excelência em tecnologia. "Também estamos monitorando investimentos feitos pelos Estados de São Paulo e da Bahia", diz.
Apesar da polêmica que essas propostas do WWI podem suscitar em setores produtivos conservadores, elas soam como alternativa à máxima "a história se repete", fato que poderia render obra similar a "Colapso", mas, desta vez, sobre uma certa civilização do século XXI.
Fontes: Valor Econômico e WWI-Worldwatch Institute / UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica
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