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Ainda o Rio São Francisco
É difícil julgar a polêmica transposição das águas do Rio Francisco, tantos são os argumentos técnicos dos que são favoráveis ou contrários à iniciativa governamental. O tema requer conhecimentos sobre as regiões que corta, o que exige equilíbrio na avaliação e significado da importante obra.
Porém, existe um ângulo da controvérsia a merecer algumas considerações. Referimo-nos a opiniões que resultam de uma visão, a nosso ver, equivocada. Quando se fala sobre as terras banhadas pelo Grande Rio, muitos definem os Estados, às quais pertencem, como “doadores”, isto é, os que se dizem mais prejudicados com a transposição.
Admitamos que procedam as razões das críticas feitas ao projeto: à construção de 720 quilômetros de canais para levar água a áreas secas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, beneficiando culturas agrícolas e reativando a produção local; favorecendo indústrias e a população urbana, inclusive com a criação de 5 mil empregos enquanto durar a transposição. Mas, o aspecto singular das contestações, para o qual chamaríamos atenção, seria a denominação dos que se consideram “Estados-doadores”.
O índio, asseveram vozes autorizadas e merecedoras de credibilidade, não dizem “o meu rio”, “minhas árvores”, “meus pássaros” e assim por diante. Essas são afirmações de tantos que conviveram com as mais diversas tribos do Brasil, desde o marechal Rondon, de indiscutível procedimento civilizador, passando pelos irmãos Villas-Boas, pelo sociólogo Darcy Ribeiro e outros conceituados indigenistas.
O índio, a quem nós chamamos erradamente de selvagem, sabe mais do que os presumíveis civilizados, que a natureza não pertence a ninguém. É o caso do Rio São Francisco. Políticos, governadores ou parlamentares, atribuem, a alguns Estados por onde flui, a condição de “doadores”. Doadores de quê? De água. Como se a natureza pudesse ser considerada uma propriedade privada ou mesmo pública, quando, realmente, faz parte de um conjunto cuja dimensão é bastante superior à mais que imperfeita condição humana.
Essa auto-privatização da natureza se encaixa em algo semelhante, nunca comentado. Seria, aliás, uma antiga privatização disfarçada de certos trechos do Grande Rio em prejuízo de algumas populações ribeirinhas. Essa, porém, é outra questão, que deverá ficar, provavelmente, submersa pelo esquecimento dos poderes públicos, enquanto um bem de valor inestimável, como a água, é objeto de indevido tratamento politizado, reduzindo sua importância a simples querela capaz de abrigar interesses localizados.
Fonte: Folha de Pernambuco
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