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O indivíduo e a rede

Louis Dumont coloca em questão a concepção de indivíduo e sociedade tal como ela é determinada pela sociedade moderna ocidental. Esta concebe o indivíduo como um ente independente, com uma existência ontológica. A sociedade seria o meio onde esses indivíduos se organizam e vivem. Dessa forma se coloca o indivíduo numa posição anterior às relações sociais e culturais. Daí nascem as idéias de igualdade e liberdade, difundidas e instituídas na sociedade moderna como a legítima e única forma de realização do indivíduo na sociedade. A idéia de hierarquia, de castas, passa então a ser repudiada e renegada como um mal, uma anomalia social ou qualquer outro adjetivo que expresse um sentimento de aversão. E, é em geral, dessa forma que é visto o sistema de castas na Índia.

Ao estudar esse sistema de castas, Louis Dumont procura compreendê-lo desvinculando-se de uma visão etnocêntrica. Ele não quer que se tenha uma visão negativa da hierarquia. Devemos entender a hierarquia como o "produto" de uma lógica que está baseada na "desigualdade", na qual o "indivíduo" se torna "pessoa". Há então uma relativização do indivíduo, tal como é concebido pela sociedade moderna, e essa concepção de indivíduo passa a ser vista, para Louis Dumont, como um valor e não como uma verdade universal.

"... o indivíduo é um valor - ou, antes, ele faz de uma configuração de valores sui generis."

("Homo Hierarchicus")

Quanto à idéia de que o indivíduo é anterior à sociedade e possui uma existência independente dela, diz Louis Dumont afirma que as idéias que contribuem para a formação de um ser humano são idéias e comportamentos dados por uma cultura, por uma sociedade.

"O homem age em função do que ele pensa e, se possui em certo grau a faculdade de agenciar seus pensamentos ao seu modo, de construir categorias novas, ele o faz a partir das categorias que são socialmente dadas, e sua ligação com a linguagem basta para lembrar esse fato."

("Homo Hierarchicus")

Porém temos o hábito de tomar como estritamente nossa uma experiência que até então não tínhamos vivido, mas que na verdade já se repetiu diversas vezes entre outros membros da sociedade e fatalmente tornará a repetir-se. Algo que, na verdade, tem uma dimensão coletiva e é encarado como um acontecimento individual e único. Esse hábito (socialmente criado) obscurece a noção de que se pertence e se é também produto de uma coletividade, de uma rede.

"... extirpe de si mesmo o material social e você não será mais do que uma virtualidade de organização pessoal."

("Homo Hierarchicus")

É justamente nesse ponto que a noção de indivíduo deve ser relativizada e entendida como um valor. Ao nos percebermos como "pertencentes" (no sentido de ser) a uma sociedade, então descobrimos que a própria noção de indivíduo é a marca, é um valor dessa sociedade.

"... a percepção de nós mesmos como indivíduos não é inata, mas aprendida; em última análise, ela nos é prescrita, imposta pela sociedade em que vivemos."

("Homo Hierarchicus")

Frijtof Capra, físico, e teórico de sistemas, em seu livro "As Conexões Ocultas", relata que as últimas descobertas cientificas demonstraram que todas as formas de vida, desde as células mais primitivas até as sociedades humanas, suas empresas e estados nacionais e até mesmo sua economia global, organizaram-se segundo o mesmo padrão e os mesmos princípios básicos: o padrão em rede. Capra desenvolve uma compreensão sistêmica e unificada que integra as dimensões biológica, cognitiva e social da vida e demonstra claramente que a vida, em todos os seus níveis, é interligada por meio de redes complexas.

Conforme Capra, a vida no âmbito social pode ser também compreendida em termos de rede.

"Redes vivas em comunidades humanas são as redes de comunicação. (...) Cada comunicação cria pensamentos e significados os quais, por sua vez, dão lugar a comunicações posteriores, e assim uma rede inteira gera a si própria. À medida que comunicações continuam a se desenvolver na rede social, eventualmente produzirão um sistema compartilhado de crenças, explicações e valores - um contexto comum de significados conhecido como cultura, o qual é continuadamente sustentado por comunicações adicionais. É através da cultura que os indivíduos adquirem identidade como membros da rede social".

(Fritjof Capra)

Retornando a Louis Dumont, podemos observar que ele desnaturaliza a questão do indivíduo e diz que esse é uma instituição social. O autor vai além e diz que a sociedade proposta pela visão individualista nunca existiu. Ele critica a visão de sociedade que o individualismo propõe, partindo de sua concepção inicial de que o indivíduo é um produto, um valor social, e reflete o conjunto desses valores. O indivíduo não é um elemento de oposição à idéia de sociedade; é, antes, um produto dela, tanto do ponto de vista da sua formação (personalidade) quanto do ponto de vista da própria categoria indivíduo, que é um valor social.

"Uma sociedade tal como foi concebida pelo individualismo nunca existiu em parte alguma, pela razão a que referimos, a saber, de que o indivíduo vive de idéias sociais."

("Homo Hierarchicus")

Pierre Levy, em sua obra "Educação e Cibercultura", traz a idéia de que a interconexão entre os indivíduos favorece os processos de inteligência coletiva, principalmente nas comunidades virtuais.

"Mais precisamente, o ideal mobilizador da informática não é mais a inteligência artificial (tornar uma máquina tão inteligente, mais inteligente até, quanto um homem), mas sim a inteligência coletiva, isto é, a valorização, a utilização otimizada e a colocação em sinergia das competências, imaginações e energias intelectuais, independentemente de sua diversidade qualitativa e de sua localização. Esse ideal da inteligência coletiva passa evidentemente pela colocação em comum da memória, da imaginação e da experiência, por uma prática banalizada do intercâmbio de conhecimentos, por novas formas, flexíveis e em tempo real, de organização e coordenação".

("Educação e Cibercultura")

Levy também ressalta que, embora as novas ferramentas e técnicas de comunicação favoreçam o funcionamento, em inteligência coletiva, dos grupos humanos, elas não o determinam de maneira automática.

"O ciberespaço, interconexão dos computadores do planeta, tende a tornar-se a maior infra-estrutura da produção, da gestão, da transação econômica. Em breve, constituirá o principal equipamento coletivo internacional da memória, do pensamento e da comunicação. Em suma, daqui a algumas décadas, o ciberespaço, suas comunidades virtuais, suas reservas de imagens, suas simulações interativas, sua irreprimível profusão de textos e sinais serão o mediador essencial da inteligência coletiva da humanidade".

("Educação e Cibercultura")

Conforme o pensamento de Levy, estão surgindo gêneros de conhecimentos inéditos em conjunto com critérios de avaliação inéditos para orientar o saber, os novos atores na produção e no processamento dos conhecimentos, novamente dentro de uma idéia de interconexão, de produção coletiva.

No Brasil, tanto Roberto DaMatta quanto Gilberto Velho falam da contradição que existe entre um ideal individualista legitimado pelas leis e por um discurso ideológico universalista e uma estrutura hierarquizada de relações sociais. Especialmente, Roberto DaMatta fala de conflito social e da negação desse conflito na sociedade brasileira.

"Um outro traço do 'Você sabe com quem está falando?' é que a expressão remete a uma vertente indesejável da cultura brasileira. Pois o rito autoritário indica sempre uma situação conflitiva, e a sociedade brasileira parece ser avessa ao conflito."

("Você Sabe com Quem Está Falando?")

Os dois autores tentam demonstrar que a sociedade brasileira não é nem uma sociedade tradicional (hierarquizada), nem uma sociedade moderna (individualista). Para perceber tal característica devem-se ultrapassar os limites do que é legal e instituído; deve-se interpretar o Brasil pelo eixo do seu sistema simbólico-ritual, por festas, textos literários etc. Roberto DaMatta e Gilberto Velho fazem esse tipo de interpretação, remetendo a situações que à primeira vista podem parecer irrelevantes ou superficiais, mas que num estudo mais aprofundado podem revelar facetas importantes de todo um esquema de relações sociais.

Gilberto Velho discute a mobilidade social e o papel que uma perspectiva individualista e uma perspectiva holística exercem sobre ela. Para ele, o indivíduo na sociedade brasileira, ao construir sua identidade, se depara com uma expectativa que é individualista (realização pessoal) e também social (manter o vínculo e ganhar prestígio diante do grupo a que se pertence).

"A tensão entre a individualização propriamente dita e a inserção em uma categoria mais ampla parece ser problema universal. Sem dúvida, a consciência dessa tensão emerge com mais nitidez com a própria ideologia individualista."

("Individualismo e cultura")

Apesar de haver na sociedade brasileira uma "valorização" do espaço familiar, da inserção em grupos; existe também um espaço para a realização do indivíduo e a construção autônoma de uma esfera de sua vida. Aqui percebemos o individualismo não só como concepção ideológica, mas sim como realização prática. Enfatiza-se aí a possibilidade de escolha e decisão voluntária do indivíduo, como, por exemplo, sair de casa, da cidade em que se vive e do âmbito das relações sociais onde estava inserido.

A expressão "Você sabe com quem está falando?", denota um pensamento hierarquizante da sociedade. Esse tipo de expressão é característico da sociedade em que há relevância da noção de pessoa. Essa noção vem junto com a idéia de que cada um ocupa um lugar no mundo e deve agir de acordo com sua posição.

"Estou obviamente me referindo ao rito do 'Você sabe com quem está falando?', que sempre implica uma separação radical e autoritária de duas posições sociais real ou teoricamente diferenciadas."

("Você Sabe com Quem Está Falando?")

Essa expressão mostra a indignação de alguém que acha (a indignação pode ou não ser admitida socialmente, embora na maioria das vezes o seja) que ocupa uma posição superior e foi "desrespeitado" por uma outra que, diante dessa concepção, ocupa uma posição inferior. Nesse caso, podemos perceber, mais uma vez, a contradição da sociedade brasileira, que, ao mesmo tempo que se pauta num sistema igualitário capitalista (sistema expresso na formalização de suas normas sociais - leis), ainda vivencia no cotidiano (regras não formalizadas) um sistema hierárquico em que cada um tem um lugar no mundo e se deve "pôr" neste lugar. A expressão "Você sabe com quem está falando?" é uma advertência para que a pessoa que fugiu à "regra" retome o "seu lugar". O formato "rede" tem extrema dificuldade em ser trabalhado.

Alexis de Tocqueville aponta as principais características dos povos democráticos em relação aos povos aristocráticos. Ele toma os EUA como exemplo de povo democrático. A base de sua formulação está na idéia de igualdade e de desigualdade, caracterizando, respectivamente, a sociedade democrática e a sociedade aristocrática.

"A primeira e mais viva das paixões que a igualdade das condições faz nascer é, não é preciso que o diga, o amor a essa mesma igualdade."

("A Democracia na América")

Para Alexis de Tocqueville, o individualismo faz com que as "pessoas" se voltem para si mesmas, e isso não favorece o espírito de coletividade de que necessita uma organização social.

Percebe-se um traço interessante na análise de Alexis de Tocqueville em relação ao indivíduo numa democracia. Muito embora o individualismo seja o valor marcante nesse tipo de sociedade, algumas características dela podem contradizer esse valor. Isso ocorre em relação ao poder de opinião que a massa (o maior número de cidadãos) possui numa sociedade democrática. O poder do maior número acaba sufocando e tornando insignificante o indivíduo, não importando os motivos ou argumentos que este possua. Dessa forma, a independência individual, tão proclamada nas sociedades modernas democráticas, acaba sendo ameaçada pelo próprio princípio de igualdade, que gera a opinião pública. A democracia, nesse caso, acaba diminuindo o indivíduo e o poder de ação deste em favor da opinião pública.

"(...) o homem (...), quando vem a encarar o conjunto dos seus semelhantes e a colocar-se ele próprio ao lado desse grande corpo, imediatamente é esmagado pela própria insignificância e pela própria fragilidade. Aquela mesma igualdade que o torna independente de cada um dos seus cidadãos em particular entrega-o isolado e sem defesa à ação do maior número."

("A Democracia na América")

Assim, para Alexis de Tocqueville, a noção de indivíduo também é um valor, como em Louis Dumont - o indivíduo não é uma verdade absoluta e muito menos o individualismo é uma virtude.

Em relação à hierarquia, pode-se perceber a diferença que existe entre os conceitos de Alexis de Tocqueville e Louis Dumont. A hierarquia, para o primeiro, está ligada à noção de poder, de prevalência de uma "classe" sobre outra, levando-se em consideração que ele toma como exemplo o sistema hierárquico na França e na Europa, de um modo geral.

"As pessoas que vivem nos tempos de aristocracia são, pois, naturalmente, levadas a tomar como guia de suas opiniões a razão superior de um homem."

("A Democracia na América")

Para Louis Dumont, a hierarquia não está necessariamente identificada com o signo do poder.

"(...) se a palavra 'hierarquia' é pronunciada, (...) como se correspondesse às desigualdades inevitáveis ou residuais das aptidões e das funções ou à cadeia de comando que toda organização artificial de atividades múltiplas supõe: 'hierarquia de poder', por conseguinte. Entretanto isso mesmo não é a hierarquia propriamente dita, nem a raiz mais profunda do que é assim chamado."

("Homo Hierarchicus")

Essa diferença de concepção da hierarquia, uma vinculada ao poder e outra não, é revelada pelo próprio Louis Dumont, quando este cita o trabalho de Alexis de Tocqueville. Para Dumont, a limitação da visão de Tocqueville sobre a hierarquia ocorre por ele não ter conhecido outra forma de sistema hierárquico que não o europeu, que está baseado numa relação de poder.

Em sentido contrário, o formato em rede, traz a idéia da verticalização, da não-hierarquia, de uma nova relação do indivíduo com o coletivo.

O uso social das tecnologias de informação e comunicação, o "ideal mobilizador da informática" (Levy), traz consigo uma nova metáfora que superaria a mecanicista e a organicista, nas quais, segundo Castells, a sociologia se baseou historicamente. Segundo Osvaldo López Ruiz, em um artigo em que é analisado um texto de Castells, as redes interativas de informação tornaram-se tanto os componentes da estrutura social como também os agentes da transformação social: elas são a morfologia social de nossas sociedades.

"Embora as redes tenham existido sempre como forma de organização social, com as vantagens de ter maior flexibilidade e adaptabilidade que outras formas, elas tinham um problema inerente: a incapacidade de administrar a complexidade para além de um certo tamanho crítico. Essa limitação substancial foi superada com o desenvolvimento das tecnologias da informação. É por isso que a flexibilidade pode ser alcançada sem sacrificar a performance, e é por isso também que, por sua capacidade superior de desempenho, as redes vão gradualmente eliminando, em cada área específica de atividade, as formas de organização hierárquicas e centralizadas".

(Manuel Castells)

De acordo com essa linha de pensamento, o combate principal da era da informação é uma redefinição dos códigos culturais, códigos esses que, em última instância, residem na mente humana - a mente humana tornou-se, assim, o principal local do poder. As possibilidades de transformação estão dentro de uma nova reafirmação de valores por indivíduos que detêm o pensamento de um "saber conectado", favorecendo a empatia, o ouvir e fazer perguntas procurando entender o ponto de vista dos demais; o aprender compartilhado de experiências, levando outras pessoas a atingir um determinado conhecimento.

Contudo, segundo a análise de Ruiz, a tecnologia, para Castells, "não determina a sociedade" e existem diversos fatores que intervêm segundo um complexo padrão interativo na configuração que ela toma em cada momento da história.

"Assim, aparece a contraposição bipolar entre a Rede e o Ser e, em oposição à sociedade rede, se torna manifesto o poder da identidade. O enorme poder que tem a identidade se expressa tanto no nascimento de alternativas ao sistema por via de movimentos sociais articulados a partir de identidades específicas quanto na formação de grupos que ficam encerrados em si mesmo e na auto-afirmação de valores e sentidos definidos como forma de proteção diante de um sistema que os exclui. É por isso, afirmava Castells em meados dos anos 90, que o surgimento de fundamentalismos religiosos não é casual nesse contexto. Parece responder a uma lógica de excluir os agentes da exclusão. Quando a Rede desliga ao Ser, o Ser, individual ou coletivo, constrói seu significado sem a referência instrumental global: o processo de desconexão torna-se recíproco após a recusa, pelos excluídos, da lógica unilateral de dominação estrutural e exclusão social."

Tratar de redes sociais e da sua legitimação é também tratar de escolhas. E, mesmo sob um aspecto valorativo ou de princípios, mais uma vez as expectativas estão presentes no trânsito entre as intencionalidades dos atores e as instituições políticas e sociais.

Bibliografia

ALEXIS DE TOCQUEVILLE. A Democracia na América, editora Itatiaia ltda/editora Universidade de São Paulo, 2ª edição.

FRITJOF CAPRA. As Conexões Ocultas, Editora Cultrix.

GILBERTO VELHO. Individualismo e Cultura, Jorge Zahar Editor, 3ª edição.

LOUIS DUMONT. Homo Hierarchicus, editora Universidade de São Paulo.

MANUEL CASTELLS. A Sociedade em Rede - A era da informação: economia, sociedade e cultura; Volume 1, São Paulo: Editora Paz e Terra, 2ª ed., 1999.

OSVALDO LÓPEZ RUIZ. Manuel Castells e a "era da informação". Texto disponível online em http://www.comciencia.br/reportagens/internet/net16.htm

PIERRE LEVY. Educação e Cybercultura. Texto disponível online em http://www.compsociedade.hpg.ig.com.br/pierre/educ1.htm

ROBERTO DA MATTA. Carnavais, malandros e heróis, capítulo IV - Você sabe com quem está falando? Um Ensaio sobre a Distinção entre Indivíduo e Pessoa no Brasil.

Gislene Rodrigues é socióloga e mestre em Ciências Políticas.
Carlos Antônio é coordenador de Redes Sociais da Rits.

Artigo originalmente publicado na RITS

09 de Dezembro, 2005
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