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Por um armistício em favor dos pobres e da natureza
Autor: Pedro Novaes

A despeito da generalização do discurso em torno da noção de “desenvolvimento sustentável”, a realidade é que, na prática, nossa sociedade ainda se orienta essencialmente pela lógica segundo a qual desenvolvimento e conservação do meio ambiente são coisas opostas.

De um lado, nossas políticas de desenvolvimento e as posturas de boa parte do empresariado refletem essa idéia, guardando a crença, ainda que velada, de que a degradação ambiental é um preço que necessariamente tem que ser pago para que tenhamos desenvolvimento.

Do outro lado, também as políticas ambientais e a postura de muitos ambientalistas revelam sua própria incapacidade de se pensarem como parte e partícipes de estratégias mais amplas de desenvolvimento. No que se assemelha a uma escolha de Sofia, trabalham muito mais contra esse modelo predatório de desenvolvimento do que em prol de um outro modelo, sustentável do ponto de vista ecológico. É uma estratégia derrotista e fadada ao fracasso.

Ocorre, entretanto, que a idéia da oposição entre desenvolvimento e meio ambiente que, de uma maneira ou outra, justifica ambas as estratégias, não se sustenta quando examinada à luz das profundas relações entre pobreza e meio ambiente.

Uma rápida análise dos dados sócio-econômicos e sobre desmatamento em Goiás demonstra com clareza isso, evidenciando a urgência da construção de estratégias integradas de combate à pobreza e conservação da natureza.

Análises realizadas no âmbito do projeto “Mapeamento dos Remanescentes do Bioma Cerrado”, coordenado pela Embrapa Cerrado, com participação do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da UFG, trazem algumas informações importantes.

Em primeiro lugar, há uma significativa correlação no Estado de Goiás entre proporção de pobres nas populações dos municípios e preservação de cobertura vegetal natural. E, mais ainda, entre intensidade da pobreza e presença de cobertura vegetal. Isto é, os municípios com populações mais empobrecidas e, especialmente, aqueles onde os pobres são mais pobres estão, em geral, entre os que ainda têm a maior parte de sua vegetação ainda em pé.

Em Goiás, apenas 22 municípios, majoritariamente pertencentes às regiões Norte e Nordeste – exatamente as mais empobrecidas – concentram 50% de toda a vegetação que ainda resta em nosso Estado. (segundo o levantamento mais recente, coordenado pela Agência Ambiental de Goiás, apenas 36% de nosso território ainda são cobertos por vegetação nativa). Na mesma direção, os 30 municípios com maior intensidade de pobreza em Goiás, conforme o Censo 2000, concentram praticamente um terço da vegetação ainda existente.

Longe de justificar a necessidade de mais desmatamento (para levar qualidade de vida a essas populações), os dados sobre a relação entre PIB municipal e cobertura vegetal reforçam a falsidade da oposição entre pobreza e meio ambiente. Não há qualquer significado estatístico na correlação entre geração de riqueza, medida pelo PIB, e desmatamento. Há, tanto entre os municípios com maior atividade econômica, vários com cobertura ainda relativamente preservada – caso de Niquelândia (74,3%), Mineiros (42,3%), Cristalina (50,2%) e Luziânia (47,9%), por exemplo -, como, de forma estarrecedora, entre os municípios de menor PIB, vários com índices de cobertura vegetal próximos de zero – caso, entre outros, de Aloândia (0,96%), Adelândia (0,95%) e Caldazinha (7,39%). É desmatamento que não gerou absolutamente nada, em termos locais, do ponto de vista social e econômico.

A vasta produção científica sobre essa estreita relação entre pobreza e meio ambiente é unânime hoje em afirmar que os pobres tendem a ser os mais prejudicados pela degradação ambiental. Isso se explica essencialmente pela sua maior dependência do uso direto de recursos naturais e de certos serviços ambientais – água de rios e poços, lenha como combustível, fertilidade do solo para a agricultura familiar, etc. A degradação ambiental prejudica esse uso, e os pobres não dispõem de renda financeira para substitui-lo nos mercados. Esta dependência, por outro lado, torna os pobres potenciais aliados da conservação. Não obstante, as políticas ambientais têm sido incapazes de realizar este potencial. Ao contrário, as restrições não compensadas geradas, por exemplo, por várias de nossas unidades de conservação, acabam por agravar a pobreza e por transformar esses potenciais aliados em inimigos da conservação.

É hora, portanto, de um armistício nessa guerra velada pelo discurso onipresente do desenvolvimento sustentável. Enquanto os responsáveis pelas políticas de desenvolvimento e os empresários, de um lado, e ambientalistas e responsáveis pela política de conservação, do outro, não forem capazes de efetivamente dialogar, os pobres e a natureza continuarão pagando o preço deste modelo predatório e esgotado ainda vigente.

* Pedro Novaes é geógrafo, mestre em Ciência Ambiental pela USP e pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (LAPIG/UFG).

Artigo publicado originalmente no Jornal O Popular de Goiânia em 07/mar/2006.

13 de Março, 2006
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