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André Gonçalves (LEAD turma 4) fala sobre sobre agroecologia, liderança e mudanças climáticas.


Dia 26 de setembro de 2008, em Washington D.C., EUA, o projeto Produção de Açaí para Geração de Renda e Preservação da Mata Atlântica, idealizado pelo Centro Ecológico, foi um dos 22 contemplados por um programa de fomento organizado pelo Banco Mundial.

A competição global chamada Development Marketplace visa apoiar novas idéias voltadas para a solução de velhos problemas, como produção de alimentos de forma sustentável e geração de renda.

Em junho, o projeto do Açaí foi pré-selecionado entre 1.800 propostas de todo mundo e ficou entre cem finalistas. O agrônomo André Gonçalves, fellow da 4a turma do programa LEAD Brasil, fez sua apresentação para as comissões julgadoras durante o evento.

Os ganhadores representam 16 países, a maioria da América Latina e Caribe, seguidos pela Ásia e África. O Brasil concorria com cinco projetos, somente dois foram contemplados: um para a Amazônia e este para a Mata Atlântica.
A partir de 2009, os recursos deste programa viabilizarão os empreendimentos já iniciados pela Econativa – Cooperativa Regional dos Produtores Ecologistas do Litoral Norte do RS e Sul de SC – na produção, processamento e acesso aos canais de distribuição para o açaí da palmeira juçara.

Hoje, a região de Torres tem capacidade para produzir anualmente cerca de 15 toneladas do fruto e o desafio maior é manter e ampliar essa iniciativa, demonstrando sua viabilidade econômica.

Confira abaixo a entrevista realizada com André Gonçalves que conversou com a equipe da ABDL sobre o projeto, a competição Development Marketplace e seu papel no processo de transformação.

1. Quais são os objetivos e atividades principais do projeto Produção de Açaí para Geração de Renda e Preservação da Mata Atlântica?

O principal objetivo do projeto é trabalhar a cadeia produtiva do açaí de jussara. Há alguns anos descobriu-se que os frutos do nosso palmiteiro, árvore característica da Mata Atlântica e de fundamental importância na preservação deste ecossistema, também servem para produzir o consagrado e cada vez mais na moda açaí. Assim, o projeto contempla ações de manejo das áreas onde existem populações naturais do palmiteiro, expansão do plantio, organização de agricultores para a coleta de frutos, melhoria nas instalações em uma agroindústria de processamento, divulgação e comercialização do produto. Enfim, o objetivo maior do projeto é dar valor a um fruto que até então era negligenciado, criando novas oportunidades de renda para pequenos agricultores e preservando a Mata Atlântica.

2. O que você acredita que seja o diferencial deste projeto, frente às demais propostas apresentadas?

A produção de alimentos e a simultânea preservação da natureza ainda é um impasse que temos que resolver. Em geral, a expansão agrícola está associada com destruição. Veja por exemplo o caso da soja no Cerrado, onde as imensas plantações substituem a vegetação original causando sérios problemas sócio-ambientais. Iniciativas que conseguem combinar produção de alimentos, preservação da natureza e geração de renda para pequenos agricultores são, em minha opinião, soluções elegantes e necessárias na agricultura.

3. Quais são as contribuições desta iniciativa para a questão de Mudanças Climáticas?

Eu vejo duas contribuições importantes do projeto com a questão de Mudanças Climáticas. A primeira, mais direta talvez, refere-se à forma de cultivo e manejo do palmiteiro. Geralmente esta planta é cultivada nos chamados sistemas agroflorestais e nas áreas de fragmentos da mata. Portanto, estamos estimulando a aumentar as áreas que produzem grande quantidade de biomassa (sequestro de carbono) e a evitar o desmatamento para o uso agrícola tradicional. A segunda contribuição está associada com a própria viabilidade da agricultura familiar e das chamadas populações tradicionais que vivem no bioma Mata Atlântica. Ao se criar oportunidades de emprego e renda para essas famílias estaremos incentivando um segmento da nossa sociedade que foi historicamente marginalizado. Este setor, por sua vez, é de modo geral muito eficiente no uso responsável dos recursos naturais. Um pequeno agricultor, em qualquer canto do Brasil, consome muito menos carbono do que qualquer habitante urbano. Não sei se existe outro setor da sociedade que tenha um impacto tão pequeno no meio ambiente. Talvez aqueles que vivem da reciclagem do lixo...

4. Qual foi seu papel neste processo de mudança?

Pode parecer meio fora de moda falar isso, mas gosto muito de pensar que meu papel como liderança é de alguem que teve certas oportunidades que a grande maioria de brasileiros e brasileiras não tem. Ou seja, a oportunidade de me capacitar intelectualmente frequentando boas escolas e participando de vários programas de formação, como o próprio LEAD. Assim, meu papel foi apenas complementar ao sólido trabalho que centenas de pequenos agricultores e agricultoras vêm realizando no sentido de promover ações de produção agrícola e conservação da Mata Atlântica. Eles com seu trabalho no dia a dia, e nós, assessores técnicos, com a capacidade de elaborar as demandas, cria uma bela sinergia. O Paulo Freire tem uma frase que gosto muito: Ninguém liberta ninguém. As pessoas se libertam em comunhão. Acho que de certa forma foi isso...

5. Você acha que fazer parte do Programa LEAD contribuiu/ contribui para sua atuação? De que forma?

Sem nenhuma dúvida que participar do LEAD contribuiu de forma significativa na minha formação pessoal e profissional. O programa LEAD foi um divisor de águas na minha vida. Além do convívio estimulante e enriquecedor com várias pessoas do Brasil e do mundo, o LEAD me abriu uma série de oportunidades profissionais. De certa forma, coloco na conta do programa meus cursos de mestrado na Universidade de Londres e o doutorado na Universidade de Cornell. E quero aproveitar a oportunidade para mais vez agradecer ao querido Professor Rattner. Lembro-me que durante o processo de seleção havia candidatos com uma formação acadêmica muito mais sólida do que a minha, mas o Professor e o comitê de seleção entenderam que deveria dar a chance a alguem que estivesse trabalhando diretamente com a base. Sou muito grato a ele.

6. Quais são os principais desafios, pessoais e do projeto, daqui para frente?

No momento, expandir e consolidar a cadeia produtiva do açaí de jussara através de um trabalho em rede com diversas outras organizações que trabalham na Mata Atlântica.

27 de Fevereiro, 2009
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