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Fogões eficientes e preservação da Caatinga - entrevista com Thomson Souza (fellow)

Confira abaixo a entrevista realizada com Thomson Souza (PROLIDES) que conversou com a equipe da ABDL sobre o projeto de fogões ecoeficientes do IDER - Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis, ong do Estado do Ceará, e sua importância na preservação da Caatinga e na melhoria de vida da população local.

1. Como surgiu a idéia de realizar um projeto de fogões ecoeficientes?

A idéia dos fogões ecoeficientes não é nova: vários países têm grandes projetos do tipo, com destaque para a Índia, onde os primeiros modelos começaram a operar ainda nos anos 40. No Brasil, no entanto, a iniciativa do IDER é a primeira em larga escala. Tudo começou com a adaptação de modelos de sucesso para a realidade brasileira..

Em 2006 e 2007, com o apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e da Global Village Energy Partnership (GVEP), o IDER instalou 100 unidades experimentais em Itapipoca (CE), Trairi (CE) e Pentecoste (CE). Os resultados positivos levaram o Governo do Estado do Ceará a financiar mais 4 mil unidades em 2007/2008, e outras 18 mil para o biênio 2008/2009.

2. Quais são os objetivos e atividades principais deste projeto?

Substituir velhos fogões a lenha por modelos mais eficientes que reduzem a utilização de lenha e eliminam a fumaça do ambiente doméstico. É com essa idéia que o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (IDER), com o apoio do Governo do Estado do Ceará, vai levar qualidade de vida para 22 mil famílias, além de preservar o meio ambiente e ajudar a gerar renda em comunidades rurais do semi-árido.

Até agora, 7 mil famílias de 26 municípios já receberam seus novos fogões ecoeficientes, um modelo aprimorado dos tradicionais modelos à lenha que tem como vantagens reduzirem em até 40% o consumo de madeira e acabarem com o problema da fumaça dentro das residências. È importante destacar que apesar da inovação, os fogões são simples e estão sendo instalados nas residências com mão-de-obra local.

3. Quais os principais benefícios do uso do fogão para os usuários?

Prevenção a doenças respiratórias

A fumaça que fica dentro da casa é uma séria ameaça para a qualidade de vida no campo, causando várias doenças, sobretudo respiratórias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,6 milhões de pessoas morrem por doenças causadas pela fumaça da queima da lenha. A OMS indica que estar exposto à fumaça dos fogões à lenha tradicionais duplica o risco de pneumonia em crianças, além de aumentar riscos de doenças como infecções respiratórias, rinite, alergias e até câncer de pulmão.

Outro benefício está relacionado às paredes e as panelas que ficam limpas. Muitas famílias até reformam suas casas depois de receberem os novos fogões. É uma mudança muito importante para eles.

Fogões podem ajudar a reduzir a desertificação

Uma das metas do projeto, que consegue reduzir em até 40% o consumo de biomassa por família, é reduzir a pressão ambiental sobre a caatinga. A lenha é uma fonte de energia renovável, desde que consumida racionalmente.

4. Qual a estratégia do grupo/organização responsável pelo projeto para disseminar a iniciativa/ ganhar escala?

A perspectiva do Instituto é levar o projeto também para outros estados. Na Amazônia, uma parceria foi feita com o Instituto Mamirauá para instalação de vinte unidades em comunidades ribeirinhas nas reservas Arunã e Mamirauá. Além disso, foi desenvolvido um forno eficiente de grande porte para cinco casas de farinha da região.

O projeto já recebeu a certificação da Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social e atualmente foi finalista do Prêmio Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, promovido pelo Governo Federal em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

5. Quais os principais parceiros do projeto até o momento?

Governo do Estado do Ceará
Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID);
Global Village Energy Partnership (GVEP)

6. Qual foi seu papel neste processo de mudança?

Trabalho diretamente nas comunidades com as famílias beneficiadas, gerenciando e monitorando todas as fases pertinentes as instalações dos fogões, inclusive a logística de distribuição. Realizo palestras com os beneficiados para esclarecer a importância desse projeto e como ele será executado. Aproveito a oportunidade para demonstrar a melhor forma de manusear o novo fogão.

Através do contato direto com os beneficiados tenho a oportunidade de identificar os gargalhos da implantação do projeto e as dificuldades dos beneficiados devido a mudanças nos hábitos a partir do novo fogão.

7. Você acha que fazer parte do Programa PROLIDES contribuiu/ contribui para sua atuação? De que forma?

Sim.
Ter tido a oportunidade de participar do PROLIDES fez com que eu enxerga-se melhor o abismo existente entre os objetivos do crescimento econômico e do Desenvolvimento, dessa forma me ajudou a compreender a dimensão do desafio do Desenvolvimento Sustentável.
Ter participado do PROLIDES consolidou os ideais humanistas e ascendeu o desejo de aplicar os conhecimentos absorvidos durante anos de estudo na academia em pró dos menos favorecidos. Facilitou meu ingresso em instituições que trabalham com o foco no desenvolvimento das comunidades e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

8. Quais são os principais desafios, pessoais e do projeto, daqui para frente?

Articular para que o maior número de pessoas, que estejam enquadradas no perfil, receba esse equipamento, sem que haja queda na qualidade dos nossos serviços.
Conscientizar o poder público da vantagem da erradicação da fumaça intra-domiciliar, provocado pelos fogões tradicionais, atreladas a benefícios ambientais.
Fazer com que as famílias beneficiadas compreendam que esse projeto não é meramente uma substituição de fogão, mas uma mudança nos hábitos de lidar com a natureza, na forma de coletar a lenha e que terão que se preocupar com a reposição da biomassa retirada. A lenha é para muitos o único combustível para a cocção dos alimentos o que é preocupante em um bioma como a caatinga.




05 de Maio, 2009
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