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O Dragão Insaciável

A China está se tornando o maior mercado para produtos acabados, insumos e matérias – primas. Atualmente (2010), conta com 400 milhões de usuários da Internet, contra 240 milhões dos Estados Unidos e 80 milhões da Índia.

No ano passado, a venda de veículos automotivos na China ultrapassou a dos EUA. E o mercado chinês tende a crescer na medida em que sua economia cresça a uma taxa de 10% ao ano, enquanto o resto do mundo, particularmente os países desenvolvidos, continuam a padecer de uma crise e recessão prolongadas. Não é por acaso que 300.000 empresas estrangeiras têm investimentos na China, onde os lucros superam a média dos de outros países.

A demanda da economia chinesa por recursos naturais alimentou e continua a animar os mercados das “commodities”, mesmo nos anos de crise mais aguda, em 2008 e 2009. O impacto da demanda por recursos naturais é particularmente sentido nos países ex–colônias das potências européias, na África. À volta de Lubumbashi, a capital de Katanga, a província mais rica em cobre do Congo, surgem sinais inconfundíveis da invasão do capital chinês.

Em 2007, o governo congolês anunciou que empresas estatais chinesas iriam construir ou reformar várias ferrovias, estradas, e minas em todo o país, a um custo estimado de 12 bilhões de US dólares. O fato de o país estar pobre e devastado por anos de conflitos armados não pareceu constituir obstáculo para os investimentos de bilhões de dólares, muito mais do que os investidores e governos estrangeiros em conjunto estavam dispostos a desembolsar no país.

E o Congo não é o único beneficiário da fome chinesa por recursos naturais. Do Canadá à Indonésia, Austrália e o Cazaquistão, as empresas chinesas compram petróleo, carvão e metais ou pagam pelos direitos de explorar esses e outros recursos. Navios de carga esperam em filas ao largo de Newcastle, maior porto da Austrália, para carregar carga destinada à China. As economias africanas e latino americanas cresceram a taxas maiores das últimas décadas, devido em boa parte, à demanda crescente da China por seus recursos.

A demanda e o consumo da China induziram a elevação dos preços de todos os tipos de combustíveis, metais e grãos. Até o custo de transporte marítimo de matérias primas alcançou um novo recorde. Analistas e estudiosos da economia chinesa não prevêem o fim dessa elevação de preços, mesmo após a queda nos preços de algumas “commodities”, com a crise da economia norte-americana. A China, com aproximadamente um quinto da população mundial, está consumindo atualmente metade do cimento, um terço do aço e mais de um quarto do alumínio produzidos no mundo. A nova potência econômica detém mais de US$ 2 trilhões em reservas e exporta mais de US$ 300 bilhões por ano para os EUA, dos quais 20% são em produtos de empresas norte-americanas instaladas na China. Suas importações de muitas matérias primas estão crescendo mais do que o crescimento da própria economia. A importação de minério de ferro, por exemplo, aumentou em 27% por ano, nos últimos cinco anos, causando um “boom” sustentado para as empresas de mineração no mundo.

Diplomatas e estudiosos críticos do crescimento acelerado da economia chinesa manifestam seu receio pela “perda” da África e de outras regiões ricas em recursos naturais pelo Ocidente. Segundo os mesmos, a arrancada chinesa ameaça reduzir o domínio dos EUA, da Europa e de outras democracias no mundo em desenvolvimento. A China está se associando a regimes ostracizados e, assim, os encorajaria a desafiar as normas e leis internacionais. Corrupção, má administração, repressão e instabilidade iriam proliferar e, em última instância, prejudicar a todos.

Esses receios não podem ser ignorados, ao se observar o comportamento de alguns países vizinhos do Congo. Angola tem recebido tanta ajuda e investimentos da China que, em 2006, declarou não precisar mais da ajuda do Fundo Monetário Internacional, cujos empréstimos vem junto com exigências de transparência e de administração racional. O Sudão, ao norte, desprezou as ameaças do Ocidente e suas sanções por causa das atrocidades cometidas em Darfur, graças aos investimentos chineses na extração de petróleo e a compra de sua produção. Mais distante, a disposição da China em realizar negócios no Mianmar e seu apoio aos generais tiranos que governam este país contribuiu para prevenir uma resposta internacional mais dura à repressão violenta da oposição e de suas manifestações políticas, nos últimos anos.

Entretanto, seria errado criticar somente a China pelas práticas autoritárias dos governantes nos países pobres do “Terceiro Mundo”. As empresas ocidentais não primam por padrões de conduta mais humanos. Cinqüenta anos de ajuda norte-americana e européia não conseguiram levar prosperidade e democracia para os países que podem ser pobres, mas são ricos em recursos naturais. Uma abordagem diferente da China poderia, eventualmente, resultar em melhorias, induzindo outros investidores a desenvolver métodos mais eficientes de atuação. Mas a China, envolvendo-se mais nesses países, está mudando suas políticas, cooperando com o Banco Mundial em seus esforços de desenvolver os países da África. Subsidiando a produção de petróleo, o governo chinês contribui para a redução e estabilização de seu preço no mercado mundial. Como maior consumidor de “commodities” no mundo, a China naturalmente procura assegurar-se de uma oferta constante, para manter o ritmo de seu crescimento econômico. Nos últimos anos, o volume de matérias primas por unidade produzida tem aumentado constantemente, o que implica em mais importações de gás, petróleo e carvão e mais investimentos de capital estrangeiro. Mas isto leva também para uma rápida depredação dos recursos naturais que a China não tem como importar, tais como o ar e a água mais puros.

A China está construindo um enorme parque de indústrias pesadas e suas províncias costeiras mais ricas não atentam para as conseqüências ambientais e sociais, apesar de protestos crescentes da população. Não há mais água suficiente na bacia do Rio Amarelo, que irriga uma vasta região no norte da China e costumava suprir o precioso líquido para agricultores e indústrias. A chuva ácida de termoelétricas alimentadas por carvão está reduzindo as colheitas, levantando o espectro de revolta nas áreas rurais.

Esta insatisfação das áreas rurais, combinada com os protestos da população urbana, poderia levar o governo a refletir e rever a sua política econômica? Por enquanto, há poucas evidências de intenções de controlar e regulamentar o crescimento urbano e industrial e a busca de maior eficiência energética. Em 2002, havia 3500 siderúrgicas; em 2006, 7000 e seu número continua a aumentar. Desde o ano 2000, a China triplicou sua produção de aço, tornando se o maior produtor mundial. Também, a produção de minério de ferro do país dobrou desde 2003, tornando se o maior produtor do mundo. Ainda assim, as importações aumentaram de 148 milhões de toneladas para 375 milhões, em 2008. Estimativas de economistas prevêem que cheguem a 900 milhões de toneladas em 2014. E o mesmo vale também para outros minerais: as importações de cobre da China aumentaram em 80% no ano passado.

A China importa também cada vez mais alimentos. Em parte, por que mais terras são destinadas às cidades e indústrias e, em parte, por que a população está crescendo, mesmo com a política de restrição de uma só criança por família. Também na medida em que a população se torne mais rica e consome mais carne, se exige a importação de mais grãos. Para proporcionar mais alimentos à população, sobretudo àquela que migra para as cidades e por isso, não mais produz seus alimentos, a China, terceiro país em extensão territorial com mais de 10 milhões de km2, está comprando terras para o cultivo de alimentos e de bicombustíveis nos países africanos, tais como o Congo, Sudão e Zâmbia, cujas populações famintas são socorridas por programas de ajuda alimentar dos países ocidentais.

O produto que melhor ilustra a transição da China de exportador para importador é o petróleo. Com o crescimento da população urbana e de uma classe social cada vez mais abastada, um número maior de chineses troca suas bicicletas por motocicletas e carros. Nos últimos dez anos, a venda de carros cresceu a uma taxa anual de aproximadamente 40%, tornando a China o segundo maior mercado do mundo, prevendo-se que em 2015 ultrapassará os EUA. A quantidade de petróleo que alimenta a rede de transporte também está crescendo em ritmo acelerado. Em 1990, o consumo de petróleo da China chegou a 2,4 milhões de barris por dia. Em 2010, o consumo elevou se a 8 milhões de barris por dia, metade dos quais é importado. Estimativas da IEA – Agência Internacional de Energia – sugerem que por volta de 2030, o consumo vai chegar a 16,5 milhões de barris por dia, dos quais 13 milhões serão comprados no exterior, uma quantia que ultrapassa a produção atual da Arábia Saudita. Os países dos quais a China se tornou aliado e parceiro comercial importante são aqueles que foram ostracizados pelo Ocidente, tais como o Mianmar e o Sudão. Em ambos, o apoio diplomático e os investimentos chineses facilitaram aos regimes ditatoriais a desafiar a pressão internacional. Os 15 bilhões investidos no Sudão, principalmente na indústria de petróleo, permitiram a elevação da produção para 500.000 barris por dia, engrossando as receitas do governo que se mantém no poder, apesar das sanções dos EUA e dos outros países ocidentais que exigem a presença do presidente Omar al-Bachir perante a corte internacional de justiça de Haia, na Holanda, acusado de crimes de genocídio em Darfur. 10% das importações de petróleo da China vêm do Sudão.

Mianmar constitui uma fonte de abastecimento de madeira, pedras semipreciosas e alimentos para a China. O apoio chinês é importante para os generais no poder em Yangun, porque seu veto nas Nações Unidas impediu sanções quando as tropas atiraram contra militantes oposicionistas nas ruas da capital.

Entretanto, análises de organizações internacionais como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a OCDE – Organizações para Cooperação e Desenvolvimento Econômico que reúne os 30 países mais ricos do mundo chegaram à conclusão que a demanda chinesa por matérias primas estaria impulsionando as exportações da América Latina, sem que haja o risco de sufocar as exportações desta e de outras regiões do mundo. Para os países ricos em recursos naturais, o risco principal seria a queda da demanda por “commodities” da China. Preocupado com a regularidade dos suprimentos transportados pelo Estreito de Cingapura, o governo chinês financiou a construção de um oleoduto do Cazaquistão e outro, da Rússia.

Mas, há dúvidas quanto à possibilidade da China de continuar a consumir recursos naturais, sobretudo energéticos, a um ritmo acelerado de mais de 10% ao ano. O consumo de eletricidade tem aumentado mais do que a própria economia, causando freqüentes “apagões” e interrupções no fornecimento. Isto tem causado maior importação de carvão e petróleo que alimentam as centrais termoelétricas, o que por sua vez, aumentou a poluição da atmosfera, já saturada de CO2, SO4, metais pesados e material particulado. O enxofre que emana da queima dos combustíveis gera a chuva ácida e uma nuvem de fuligem e fumaça que cobre quase permanentemente o céu das grandes cidades e centros industriais. Os estudos de ambientalistas apontam para a perda de 3% - 7% ao ano do PIB, por causa de doenças respiratórias que afetam os operários em seus locais de trabalho.

O suprimento de água também se encontra em estado precário devido ao seu uso crescente pela indústria e agricultura. A quantidade de água disponível per capita é somente um quarto da média global e, nas regiões norte e oeste, mais áridas, essa quantia cai para 1/10. As grandes metrópoles sofrem de escassez e os lençóis freáticos estão sendo esvaziados mais rapidamente. A situação é grave em matéria de saneamento, mesmo na capital Beijing e em Shanghai. Metade da água nas bacias hidrográficas é imprópria para o consumo, segundo um relatório do Banco Mundial. Isto resulta também em perda de 2% - 3% do PIB.. Ademais, há o problema do aquecimento global e da mudança climática, com o aumento de ciclones, secas e inundações. A desertificação de vastas extensões de terras avança e as safras de arroz diminuem. Para conter os protestos populares contra a deterioração do meio ambiente, o governo decidiu encorajar o uso mais parcimonioso dos recursos naturais, preconizou uma redução da concentração de poluentes no ar,e o aumento da eficiência energética nos próximos anos, assinalando metas específicas para as grandes empresas.

Para enfrentar o problema da falta de energia, o governo está planejando quintuplicar o número de centrais termonucleares, até 2020. Também as instalações de energia eólica estão sendo expandidas a um ritmo acelerado e a expansão de usinas hidrelétricas está programada para triplicar até 2020, esperando se que o consumo de energia de fontes renováveis alcance 15% do total do consumo, na mesma data. As fábricas alimentadas a carvão são pressionadas a instalar filtros para remover o dióxido de enxofre, a principal causa da chuva ácida. O governo contratou uma empresa francesa especializada na construção e administração de estações de tratamento de água servida, para as grandes cidades. Quase 15.000 pequenas minas de carvão, inseguras e com alto grau de poluição foram fechadas nos últimos anos, a fim de eliminar a ineficiência e a ameaça à saúde e segurança dos mineiros. Entretanto, as administrações das pequenas minas e as burocracias locais resistem à implantação de medidas saneadoras, o que dificulta o alcance da meta de elevar a eficiência energética. O aumento intensivo no número de fábricas de cimento e de processadoras de metais e de petroquímicos pressiona a demanda por mais combustíveis cujas emissões, embora sejam plantas mais modernas, tendem a agravar a situação. Consumidores com mais poder de compra adquirem imóveis, carros, televisores e eletrodomésticos, cuja produção exige mais matérias primas e energia.

As altas taxas de investimentos, exportações e de urbanização impulsionam a expansão da demanda por recursos naturais e de energia. Enquanto a oferta de capitais continua abundante – vide o nível de reservas de mais de 2 trilhões de US dólares e o saldo na balança comercial de mais de 300 bilhões de US dólares - e mais, os investimentos estrangeiros, a China continuará em seu ritmo alucinante de crescimento econômico, tendendo a se tornar a maior potência econômica e, quem sabe, também política e militar do mundo, desafiando a secular hegemonia norte-americana.

10 de Junho, 2010
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