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O desafio da água

A crise de escassez da água esta iminente. Um recurso natural desperdiçado há muito tempo, agora está se tornando cada vez mais raro e caro e logo será objeto de uma demanda insaciável. O nível dos aquíferos está diminuindo, geleiras estão derretendo, reservatórios estão secando e o volume que os rios desembocam no mar está caindo. A mudança climática tende a agravar os problemas.

É imperiosa a redução do consumo por todos para evitar a fome, as pragas e as migrações em massa por todo o planeta. Guerras entre países podem irromper na disputa pelas águas de rios e a construção de represas. A água está se tornando escassa em muitos lugares e a tendência é de agravamento dessa situação. Ao continuarmos com os padrões atuais de consumo, inevitavelmente corremos o risco de desastres.

As dificuldades para equilibrar a demanda e oferta do precioso líquido começam com a dinâmica demográfica. Sessenta anos atrás, quando a população mundial contava com dois e meio bilhões de habitantes, as preocupações com o suprimento de água afetavam relativamente poucas pessoas. Claro, secas e fome sempre existiram ao longo da História, mas a maioria da população podia ser alimentada sem depender da agricultura irrigada. Na segunda metade do século vinte, a Revolução Verde – uma combinação de novas espécies de grãos, fertilizantes, agrotóxicos e água em abundância – possibilitaram um aumento enorme da população. No ano 2000, o número de habitantes da terra tinha aumentado para seis bilhões e continua crescendo, mesmo com as taxas de fertilidade diminuindo, devendo chegar a nove bilhões em 2050. A área irrigada duplicou e a quantidade de água utilizada na agricultura triplicou.

A proporção de pessoas vivendo em países que sofrem cronicamente de escassez de água, que chegava a 8% (500 milhões) na virada do século, deverá subir para 45% (quatro bilhões) em 2050, segundo as estimativas. Mesmo atualmente, um bilhão de pessoas se deitam com fome por causa de falta de água para cultivar seus alimentos. Os habitantes de regiões de climas temperados, onde chuvas moderadas caem durante todo o ano, não conseguem perceber até que ponto a água é necessária para a agricultura. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a atividade agrícola requer somente 3% do consumo da água. Nos Estados Unidos, ao contrário, 41% de toda a água é consumida pela agricultura, principalmente na irrigação. Na China, a agricultura absorve 70% e na Índia, quase 70% de toda a água. No mundo como um todo, o consumo pela agricultura chega a 70% do total. A demanda crescente por água da agricultura é causada não somente pelo maior número de pessoas a serem alimentadas, mas também pelo desejo destas de comer alimentos mais saborosos É necessário o dobro de água para produzir amendoim do que para a mesma quantidade de soja; quatro vezes mais para produzir carne bovina, em comparação com a mesma quantidade de frango e cinco vezes para produzir um copo de suco de laranja do que um de chá.
Com dois bilhões de pessoas a ingressarem na classe média, a demanda da agricultura por água irá subir, mesmo com a população permanecendo estável.

O consumo de água pela indústria corresponde a 12% do total mundial e os restantes 8% ficam para as atividades domésticas. Juntando a demanda dessas duas categorias, verifica-se que quadruplicaram na segunda metade do século XX, crescendo a taxas duas vezes mais rápidas do que a da agricultura e as projeções prevêem o aumento da demanda em todos os setores. Atender essa demanda é uma tarefa diferente da necessária para qualquer outra “commodity”, pela simples razão de que a oferta de água é limitada. O mundo não terá mais água do que hoje em 2025 ou em 2050. A maior parte da superfície da terra é mar e suas águas, 97% do total, são salgadas. Tecnicamente, o sal pode ser retirado para aumentar a oferta de água potável. Contudo, até agora, a dessalinização é cara e exige grandes quantidades de energia. Embora os custos do processo tenham diminuído, não se deve esperar que a água do mar possa ser utilizada para fins de irrigação, a médio prazo. Dos 2,5% da água que não é salinizada, aproximadamente 70% encontram-se na forma sólida nos polos e nas geleiras. Sendo assim, todos os seres vivos, com exceção dos aquáticos, dispõem de 0,75% do total para sobreviver. A maior parte desta água encontra-se em reservas subterrâneas, em aquíferos. O resto cai como chuva, enche os lagos e rios, aumentado pelo degelo da neve e o vapor na atmosfera. 60% de todas as chuvas e do gelo que caem sobre a terra não podem ser captados porque se evaporam do solo e transpiram pelas plantas e não retornam ao sistema para ser reutilizados.

A água é um bem cujo valor varia de acordo com a localidade, seu uso e as circunstâncias. Quanto à localização, sua distribuição é muito desigual. Apenas nove países detêm 60% de toda a água potável e, entre eles, somente o Brasil, Canadá, Colômbia, Congo, Indonésia e Rússia têm água em abundância. Por outro lado, China e Índia, com mais de um terço da população mundial, têm menos de 10% da água. Mesmo dentro dos países, as variações podem ser grandes. A chuva anual média no nordeste da Índia é 110 vezes a quantidade de chuva que cai no deserto ocidental. Em muitos lugares, há muita água durante alguns meses por ano, mas pouca em outros. A maior parte das chuvas na Índia vem com as monções do verão e inundam vastas áreas entre os meses de junho a setembro. Inundações tornam-se rotina e podem ocorrer mais frequentemente e causar maiores danos com a mudança climática.

Uma das características da água é seu peso, portanto, o custo de seu transporte. Qualquer tentativa de gerenciar a distribuição exige a construção de bacias de drenagem. Águas da superfície – de rios, lagos e represas – não fluem de um reservatório para outro sem recurso a meios mecânicos, em geral via bombeamento. Numa bacia hidrográfica, a água a montante pode ser útil para a irrigação, as indústrias ou para o uso doméstico. Ao aproximar-se do mar, as possibilidades de utilização diminuem até o ponto em que formam deltas, manguezais e estuários, além de levar sedimentos arenosos. Se os rios não fluem, nada pode sobreviver neles. Muitas espécies de água doce correm o risco de extinção e metade dos manguezais desapareceu durante os últimos cem anos.

Em muitos lugares áridos, a água subterrânea, ignorada por muito tempo, tem se revelado importante na medida em que a demanda dos agricultores ultrapassou o suprimento do líquido pelas chuvas e pelos rios. Os aquíferos estão sendo cada vez mais utilizados, como se fossem uma fonte inesgotável. Bastava perfurar o solo e instalar uma bomba de água, na expectativa de reduzir a dependência do clima. Mas o nível dos aquíferos depende das chuvas e das condições geológicas e do tipo de solo e a qualidade da água está diretamente relacionada com os usos do solo na superfície. Contudo, em muitos lugares, como os EUA, a China e a Índia, a quantidade de água retirada do subsolo excede a recarga anual. Isto cria problemas para as pessoas que vivem nessas regiões e, sobretudo, nas grandes metrópoles que dependem de aquíferos para o suprimento de água potável. Por exemplo, os habitantes da região metropolitana da Cidade de México retiram sua água de um aquífero correndo o risco de seu esgotamento nas próximas décadas. Também, em Bancoc, Buenos Aires e Jacarta, os aquíferos estão diminuindo, poluídos e contaminados por sais e produtos químicos tóxicos. Da mesma forma, prossegue a degradação dos aquíferos dos quais dependem os agricultores. Na bacia do rio Hai, na China, os níveis de água subterrânea têm baixado até 90 metros. A vantagem de instalar uma bomba de água é que não exige um procedimento elaborado e complexo. Qualquer agricultor pode perfurar seu solo, baixar um tubo e extrair a água. Na China e na Índia, há milhões de poços de irrigação, todos retirando o líquido de uma fonte comum. No planalto dos Estados Unidos, o aquífero se estende por 450.000 km2 debaixo de oito estados e o aquífero Guarani se estende por mais de um milhão de quilómetros quadrados debaixo do solo de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Mas mesmo esses enormes reservatórios não estão imunes às leis da física. Partes do aquífero sob o planalto norte-americano estão sendo seriamente exauridas.

Por isso, seria necessário cobrar dos agricultores pelos direitos de retirar água do subsolo. Entretanto, na maioria dos casos, não há cobrança e, mesmo que houvesse, dificilmente refletiria a escassez latente. Paga ou não, a água é um recurso valioso e seu valor depende do uso. A água serve não somente para cultivar alimentos, mas é utilizada na fabricação de uma imensa gama de produtos, desde componentes microeletrônicos até a fundição de aço. O maior consumo industrial ocorre na geração de energia termal e na extração de petróleo, na produção de etanol e na geração de hidroeletricidade. A geração de hidroeletricidade consome pouca água que é devolvida aos rios após mover as turbinas, mas a tecnologia de extrair petróleo de areias betuminosos consome enormes quantidades. O consumo industrial retira aproximadamente 60% da água nos países desenvolvidos e 10% nos outros. A diferença no consumo doméstico é significativamente menor: 11% e 8%, respectivamente. Todos os seres humanos necessitam, no mínimo, dois litros de água sob forma de alimentos e bebidas, por dia, para os quais não há sucedâneo. Ninguém sobreviveu ao terremoto de Port-au-Prince, de janeiro de 2010, sem que tivesse acesso a algum líquido. Por isso, muita gente em países pobres, geralmente mulheres e crianças, levantam-se cedo para chegar ao poço mais próximo e voltar, cinco ou seis horas depois, carregando baldes com o precioso líquido.

É esta a razão pela qual surgiu a afirmação de que a água constitui um direito humano, uma necessidade básica mais importante do que o pão ou o teto para abrigar-se. Esta visão tem muitas consequências. Uma é a convicção generalizada de que ninguém deve pagar pela água. O imperador bizantino Justiniano declarou no século VI que. pela “lei natural”, o ar, a água corrente, o mar e suas costas seriam bens “comuns” de todos. Muitos indianos concordam, considerando a água subterrânea como um recurso “doméstico”. Outra consequência é que a água possui muitas vezes uma conotação sagrada ou mística, representada por divindades como Gong Gong ou Osíris, e os rios como o Jordão e o Ganges. Durante toda a História, a dependência dos homens da água levou-os a viver em sua proximidade e a organizar o acesso às fontes do líquido.

A água está em nosso corpo em até 70% e em nossa alma. Ela proporciona não somente a vida e os alimentos, mas serve também como meio de transporte, de limpeza e de mecanismo para remover o lixo e os excrementos. Constitui o habitat de peixes e de outros animais. É um meio para cozinhar e um espaço para o lazer. Esteticamente, inspira e eleva o ânimo. Não se admire, portanto, que um bem com tantas qualidades, usos e conexões tenha se mostrado de difícil organização e distribuição.

São Paulo, julho de 2010

09 de Agosto, 2010
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