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O crepúsculo de um tirano
O título leva à uma associação com uma ópera de Richard Wagner, (“O crepúsculo dos Deuses”) particularmente apreciada por outro ditador sanguinário, Adolf Hitler, que preferiu assistir à destruição total da Alemanha para não render-se às tropas aliadas que avançaram sobre Berlim do ocidente e do oriente. Como Hitler, também Qadaffi apresenta traços de personalidade paranóica e de extrema crueldade para com seus adversários, reais ou imaginados. Isto explica em parte, embora não justifique a violência adotada na repressão dos protestos da população da Líbia, a qual, a exemplo do que ocorreu na Tunísia e no Egito, está clamando por liberdade e reformas democráticas. Recorrendo a mercenários contratados por não confiar em suas próprias forças armadas, a repressão das manifestações populares tem sido brutal, causando até esta data (24/02/2011) mais de mil mortos e milhares de feridos. A resistência teimosa e raivosa de deixar o poder explica-se pela enorme fortuna amassada e depositada no exterior e cuja primeira avaliação, segunda a mídia internacional, alcança setenta bilhões de U$ dólares que, certamente, serão congelados e eventualmente repatriados após a queda do ditador.
Após a queda dos ditadores da Tunísia e do Egito, a atenção da mídia e da opinião pública internacional deslocou-se para os acontecimentos dramáticos na Líbia que tornou-se cenário da mais violenta e sangrenta confrontação entre a população e seus governantes, das últimas décadas. A onda de revoltas e protestos que varre o mundo árabe, desde o Atlântico até o Golfo da Pérsia, irrompeu também na Líbia, agravada pelas ameaças do ditador de causar uma guerra civil, mesmo com o desmoronamento de seu regime à vista. Entre as reivindicações difusas dos opositores estão a liberdade, a convocação de uma Assembléia Nacional para definir um governo interino e a elaboração de uma Constituição.
País de grande extensão territorial – 1,759 milhão de km2 de área com uma população de 6,7 milhões de habitantes, sendo 95% de seu território deserto, quente e seco, enquanto as planícies costeiras são privilegiadas por um clima mediterrâneo, mais úmido e mais densamente povoada. A Líbia é composta por três regiões ou províncias: a Cirenaica, a Tripolitânia e o Fezzan, cada uma com características econômicas, geográficas e ecológicas bem distintas. A região costeira da Tripolitânia é a mais fértil, com clima mediterrâneo e produtora de frutas, olivas e trigo. A Cirenaica, à leste do país é rica em petróleo e o Fezzan é uma região desértica, habitada milenarmente por nômades. A história da região remonta à antiguidade, dos navegantes fenícios, posteriormente substituídos pelos gregos, romanos e bizantinos até que, em 1561, foi conquistada pelos turcos Otomanos até o início do século vinte. Ainda antes da primeira guerra mundial, com o desmoronamento do sultanato com sede em Istambul, a Líbia foi ocupada numa guerra relâmpago pelos italianos que chegaram tarde à divisão do mundo entre as grandes potências colonizadoras, França e Grão Bretanha. Durante a segunda guerra mundial, a Líbia foi campo de encarniçadas batalhas entre as tropas britânicas e o África Corps alemão comandado pelo general Rommel que infligiu derrotas sucessivas aos ingleses, até serem detidos em El-Almein, a 110 km de Suez. Por carecer de suprimentos e combustível, as tropas alemãs acabaram sendo derrotadas e rechaçadas o que representou uma virada na guerra, agravada pela derrota e rendição de 600.000 soldados alemães em Staligrado, na Rússia.
Após a guerra, os aliados instalaram na Líbia, em 1951,um regime monárquico que concedeu bases militares e aéreas aos norte- americanos. O rei Idris foi deposto em 1969, por jovens oficiais militares sob a liderança do coronel Muammar al Qadaffi que emergiu como ditador pregando uma doutrina socialista mesclada com idéias islâmicas. Posteriormente, envolvendo-se com ações terroristas, a Líbia sofreu ataques da força aérea norte-americana, estacionada no Mediterrâneo que bombardeou as cidades de Trípoli e Benghazi. Sob a pressão dos EUA, o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs severas sanções à Líbia, em 1992. A normalização das relações diplomáticas e comerciais entre a Líbia e os países ocidentais somente ocorreu quando o país passou a produzir e exportar petróleo em quantidades apreciáveis, abrindo suas portas à entrada das grandes companhias petrolíferas para desenvolver a indústria e abastecer com o combustível os países europeus.
Eliminados os opositores internos e reabilitado pelo Ocidente, Qadaffi implantou uma ditadura das mais absolutistas que perdurou por mais de quarenta anos, parecendo indicar seu filho Saif-al-Islam como possível sucessor. Apesar das receitas fabulosas com a exportação de petróleo e a eliminação das sanções internacionais, a economia da Líbia cresceu pouco, não gerou empregos suficientes para uma população jovem, ao mesmo tempo em que Qadaffi, bajulado por políticos europeus (S.Berlusconi) e latino-americanos (Lula) criou um Fundo Soberano de Investimentos que além de enriquecer sua família permitiu a expansão por aquisições e participação em negócios na Europa e na África. A taxa de desemprego é altíssima, frustrando os jovens em suas expectativas d4e ingressar o mercado de trabalho. Há um mês, surgiram as primeiras notícias de revoltas – o “dia de fúria” – reprimidas com armas de fogo pelos mercenários de Qadaffi, nas principais cidades do país, deixando centenas de mortos e milhares de feridos. Apesar de gestos de apaziguamento, propondo um aumento de 100% nos salários dos funcionários públicos e a libertação de militantes políticos presos, a revolta continua e aproxima-se, cada vez mais, à capital. Diferentemente do Egito, onde o exército revelou-se capaz de induzir Mubarak a renunciar, as forças aramadas da Líbia foram propositadamente enfraquecidas e mal armadas pelo ditador para evitar qualquer desafio a sua autoridade. Para assegurar-se do apoio armado, criou uma milícia – os “comitês revolucionários” que constituem a força de apoio ao ditador e sua família. Estes “comitês” estão concentrados na capital e em seu redor, enquanto a oposição se concentra nas outras cidades do país, o que leva a prever uma demorada e sangrenta guerra civil, se o exército mantiver suas tropas sob controle e não autorizar ataques aos oposicionistas.
Qadaffi destituiu o povo líbio de seus direitos básicos, reprimiu violentamente todas as manifestações de dissidentes, enquanto acumulava uma imensa fortuna depositada fora do país. Ao conclamar seus partidários a atacar os opositores, Qadaffi jurou lutar “até a última gota de sangue” – dos outros! A possível queda da ditadura ameaça fragmentar o país em três regiões, sendo o Fezzan, no deserto do Saara, o reduto de tribos nômades que sempre viviam independentes do poder central.
Enquanto prosseguem os combates, discute-se em fóruns internacionais, a possível intervenção para evitar um massacre e assiste ao êxodo de dezenas de milhares de trabalhadores estrangeiros. As últimas notícias falam do cerco a Trípoli pelos opositores que estariam controlando as principais cidades do país. Pilotos de caças que receberam ordens de bombardear os opositores ao regime desertaram e vários diplomatas líbios no mundo renunciaram aos seus cargos por não concordar com as medias adotadas pelo ditador.
Enquanto a atenção está focada na Líbia, protestos contra os governos continuam no Iêmen, na Jordânia, no Omã e nos países do Golfo Pérsico. Estamos longe de um desfecho dessa fase conturbada no mundo árabe.
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