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Solidariedade, redes e frutos do mar
Se perguntarmos para dez pessoas que imagem elas têm da região da Grande São Paulo, ao menos nove, com certeza, dirão algo como poluída, barulhenta, perigosa ou infernal. A “feia fumaça” de Caetano continua apagando as estrelas e as malocas de Adoniran se reproduzem num caos indecifrável. Contudo, uma outra realidade se esconde por trás desse panorama sombrio. Espremida entre alguns braços ainda preservados da represa Billings e o topo da Serra do Mar, Rio Grande da Serra desperta curiosidade naqueles que se interessam pela história e dinâmica de desenvolvimento das metrópoles.
O município encontra-se completamente inserido na Área de Preservação de Mananciais da Bacia Hidrográfica da Billings, na Região Metropolitana de São Paulo. Essa condição garantiu à região o amparo legal necessário à preservação ambiental. É bem verdade que, assim como toda a periferia de grandes núcleos urbanos, essa legislação também demonstrou enormes fragilidades, e processos de urbanização descontrolada convivem com iniciativas preservacionistas dispersas. Mesmo assim, ao andar pela cidade ainda se sente um cheiro provinciano no ar.
Nesse cenário, que mistura um “quê” de preservação com pitadas descontroladas de crescimento urbano, está nascendo uma iniciativa interessante de educação ambiental. Com o apoio de uma empresa local, alunos de onze escolas públicas desenvolverão ao longo de 2003 projetos de intervenção socioambiental com o objetivo de melhorar a qualidade de vida, promover o debate sobre sustentabilidade e contribuir para o fortalecimento da cidadania nas suas comunidades. Ao todo serão 3.500 jovens, 70 educadores e milhares de moradores que se empenharão em melhorar as condições de vida. Cada escola – com a contribuição da comunidade – já fez seu projeto, que contará com uma verba inicial para “colocar o bloco na rua”. Ao final do ano, um grande evento reunirá todas as escolas envolvidas, e respectivas comunidades, para demonstrar seus resultados e trocar experiências, além de, é claro, comemorar.
A idéia por trás do projeto – concebido e coordenado pelos fellows da 9ª turma do Programa LEAD Fernando Monteiro, Lídia Fernandes e Paula Arantes – é fortalecer as redes sociais, aproximar pessoas e instituições e propiciar um ambiente de cooperação para que superarem seus problemas comuns. Às vezes pode ser difícil perceber essas redes, mas elas estão lá, embora um pouco empoeiradas ou com os nós frouxos. Assim como também existe vontade das pessoas em participar, opinar e transformar. Nosso trabalho, enquanto agentes de mudança, é perceber essa vontade, motivar a transformação, fortalecer os nós e dar às pessoas a oportunidade de acreditar novamente.
A experiência de Rio Grande da Serra nos permite algumas reflexões. Primeiro, ela comprova, mais uma vez, que as comunidades possuem muitos dos recursos necessários para a superação de grande parte dos desafios que lhes são impostos. O importante é saber que fios puxar para que a rede se expanda. Segundo, que experiências como essa são espaços muito ricos para que a nossa própria rede leadiana se articule e fortaleça. Tecer essas redes de solidariedade com certeza nos trará uma infinidade de frutos – e que não são do mar!
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