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A Arte de Poluir e as Partes Desinteressadas
No dia 25 de agosto aconteceu a quinta edição do Fórum Liderança ABDL com a presença do empresário, ambientalista e fellow da 1ª turma do Programa LEAD, Eugênio Singer, que procurou provocar os presentes a questionarem os atuais impasses que impedem o desenvolvimento da sustentabilidade na palestra intitulada “A arte de poluir e as partes desinteressadas”. Eugênio usou sua fala para levantar a reflexão a respeito de alguns pontos que ele considera centrais no debate sócio-ambiental, estruturando-a em três eixos: história, nós e saídas.
Segundo ele um dos principais problemas o Brasil precisa vender para se desenvolver de forma sustentável é o que identifica como “a contínua luta entre história e geografia”. É o caso, por exemplo, da existência de dos inúmeros programas já criados na tentativa de combater a seca do semi-árido nordestino. Historicamente todos esses esforços foram infrutíferos e acabaram se tornando enormes ralos de dinheiro público na tentativa de vencer uma realidade geográfica daquela região, algo simplesmente impossível de ser realizado. Não é o caso de acabar com a seca, mas de encontrar formas de convivência. “Houveram vários Departamentos de Obras Contra a Seca quando deveriam existir Departamentos de Obras Com a Seca”, completa.
Eugênio identifica nessa separação entre história e geografia um dos principais “nós górdios” que a sociedade brasileira precisa equacionar para fazer deslanchar seu desenvolvimento, “o Brasil tem todos os fatores relevantes, mas algo simplesmente não vai para frente”, lamenta. Esses obstáculos, na grande maioria dos casos, estão profundamente enraizados na mentalidade brasileira e só conseguirão ser vencidos quando houver uma vontade real para implementar as mudanças necessárias ou mesmo de romper totalmente com algumas heranças históricas se quisermos reverter o atual quadro de ação entrópica do homem sobre a natureza.
O atual modelo civilizatório, conivente com diversos exemplos claros de agressões ou desperdício, é o principal culpado pela degradação ambiental que há muito fugiu do controle de qualquer ator individual e alerta que não existe muito que possa ser realmente feito se nos mantivermos dentro das atuais linhas mestras. Basta não fechar os olhos para fatos cotidianos como a quase inexistência de empreendimentos econômicos efetivamente barrados em conseqüência de considerações ambientais ou para o consumo irresponsável do dia a dia para constatar que, 0como afirma Eugênio, ainda “desconhecemos um modelo que realmente se harmonize com o meio ambiente”.
Contudo uma verdadeira saída para a atual situação passa necessariamente pelo nebuloso campo da conscientização da sociedade para o problema. Qualquer mudança para um modelo realmente sustentável precisará de um verdadeiro envolvimento de massas e da criação de instâncias capazes de sistematizar e repassar informações, de modo que os indivíduos possam de envolver mais ativamente com os processos de decisão e não fiquem sujeitos à compra de pacotes fechados de projetos e ações. Nesse sentido um cenário que promissor, na avaliação de Eugênio, é o que aponta o crescimento da chamada Responsabilidade Social em meio ao empresariado. Embora impregnada de modismo, não deixa de ser um dado importante a atual aproximação entre lideranças do setor privado e a pauta de reivindicações sócio-ambiental. Como exemplo dessa nova mentalidade empresarial cita da reformulação promovida Ricardo Semler no Grupo Semco, e a sociedade de ambos na ERM Brasil, uma das maiores empresas de consultoria ambiental do mundo.
Mas, não basta corrigir os erros, é preciso construir uma consciência que permita montar iniciativas harmônicas desde sua concepção, “não adianta roubar a vida toda e, no final, criar uma fundação”, adverte Eugênio. Para que isso realmente ocorra ferramentas como o Pensamento Lateral (que estimula indivíduos a se colocarem nas posições uns dos outros) podem ajudar a lidar com a diversidade e impedir que continuemos desperdiçando esforços e recursos com inimigos que, muitas vezes, existem apenas para os nossos medos – os recursos despendidos com orçamentos militares são o exemplo extremo dessa disposição.
Vencer esse medo em relação ao desconhecido é um passo fundamental para que as pessoas superem a barreira representada pelo imobilismo e pela acomodação em relação à diversas práticas muito pouco razoáveis mas já digeridas pelo cotidiano. Questionar o status quo no que ele tem de irracional ousando sugerir soluções, mesmo que estas batam de frente com o modelo normal, quando forem mais vantajosas, deveria ser uma atitude continuamente encorajada em todas as dimensões do social de forma que um modelo insustentável não suceda ao outro.
Atualmente uma das apostas de Eugênio para promover essa reeducação é o Instituto Pharos, ONG que ajudou a fundar junto com um grupo de empresários e cientistas, para articular e empoderar comunidades costeiras. Um dos principais objetivos do recém-criado instituto é desenvolver parcerias criativas e interdisciplinares. “Tornarmos a sociedade mais interdisciplinar eliminamos o excesso de especialização e divisão do pensamento que nos torna menos laterais e mais egoístas”, conclui.
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