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O “Velho Chico” atravessa o milênio em meio a debates e disputas em torno do projeto de transposição. A seguir, uma série de artigos, reportagens e links para ajudar você a se informar e posicionar nessa questão.


A experiência do Zé Peão na construção da educação para a cidadania

O Boletim ABDL entrevistou Maria José Nascimento, a Zezinha do Pronord 2, sobre seu trabalho de alfabetização de jovens e adultos na região de João Pessoa, Paraíba.

Como Coordenadora Pedagógica do Projeto Escola Zé Peão, que há 13 anos ensina trabalhadores da construção civil, Zezinha ajudou a construir um dos principais referenciais brasileiros nessa área. Atualmente ela expande as metodologias desenvolvidas durante essa experiência para outras entidades congêneres, auxiliando a divulgação de um modelo de educação que vai muito além do ensino.

Boletim ABDL –Como é o Projeto Zé Peão e no que ele inova em relação a todos os outros projetos de alfabetização de jovens e adultos?

Maria José Nascimento – Um diferencial do Projeto Escola Zé Peão é seu público. A experiência começou em 86 quando o Grupo Zé Peão – o nome do projeto é uma homenagem a esse grupo, nem dá para falar do projeto sem contar um pouco dessa história – assumiu a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Esse grupo percebeu que o alto índice de analfabetismo da categoria era uma das coisas que dificultava a atuação política do sindicato, por isso criou-se o projeto de abrir salas de aula dentro dos canteiros de obras. Como era certo que abrir as salas seria difícil, porque os empregadores seriam contra, então na Convenção Coletiva – é um instrumento legal que rege direitos e deveres das relações de trabalho – de 1990 foi incluída uma cláusula cujo texto obrigava empresas com mais de 20 trabalhadores que não tivessem escolaridade a instalar salas nos canteiros. Sabíamos que esse texto não passaria da mesa de negociações, por sorte a questão foi para julgamento no Ministério do Trabalho e acabou aprovada. Índices do IBEGE mostravam altas taxas de analfabetismo, por isso nossa iniciativa chamou a atenção e foi transformada num dissídio coletivo.

Boletim ABDL –Então agora os empresários do setor são obrigados a abrir as salas de aula?

MJN – Isso. Depois de aprovada pelo Ministério do Trabalho, veio a briga para consolidar o direito. Nossa primeira dificuldade veio dos trabalhadores, que não sentiam necessidade de estudar porque, no final da década de 80, a construção civil arregimentava pessoas sem qualquer escolaridade, então eles não sentiam necessidade. Convencer os trabalhadores foi uma grande conquista, porque a lei impunha a exigência dos trabalhadores desejarem as aulas.

Nessa época sindicato tinha vínculos com algumas pessoas do meio acadêmico. Foram elas que montaram o projeto original e o enviaram ao FNDE que nos deu apoio para, em 91, instalamos as primeiras seis salas de aula, mesmo enfrentando resistências de empregadores e empregados.

O Zé Peão já nasce com a idéia de que as escolas não servem apenas para ensinar a ler. Não que a gente quisesse usar as salas como plataforma sindical, mas tínhamos muito claro que as salas seriam espaços para discutir os princípios da cidadania, porque quando esses princípios chegam ao indivíduo, ele mesmo passa a repensar o seu estilo de produção.

Hoje são os empresários que solicitam a instalação de salas de aula, até porque as novas tecnologias e a competição dentro do setor, que exige processos de qualidade total pautados nas certificações ISO, gera a necessidade de investimentos na escolaridade dos trabalhadores. Todo começo de ano há uma disputa. Se isso acontece é porque os empregadores avaliam que os resultados têm sido positivos.

Boletim ABDL –Quais são os referenciais teóricos do projeto?

MJN – Um dos nossos referenciais teóricos foi o Paulo Freire, que trabalha as questões do compromisso, da ética e do conhecimento técnico muito bem. O projeto fundamentou-se em três princípios metodológicos: o da contextualização, o da significação operativa e o da especificidade escolar. A gente trabalha muito com o contexto do operário, com o significado dos conhecimentos que esse trabalhador já tem. Assim, ele poderá compreender as especificidades de seu próprio mundo, “porque o trabalhador é assim, porque o empregador é assado”. Ensinamos sempre com base na realidade, mas ampliando para possibilidades que não as da construção civil, é aquilo que o Paulo Freire já dizia: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra.”

Nunca tivemos o objetivo de alfabetizar em seis meses, nosso tempo é o do trabalhador. Muitas vezes eles nos diziam que ainda não tinham aprendido a ler, mas tinham aprendido “muita coisa”, é esse aprendizado de formas diferentes de pensar a via que a escola também pode oferecer, por isso trabalhamos com artes, bibliotecas volantes, comunicação e visitas a espaços históricos. Também lidamos com temas transversais como gênero, etnia e meio ambiente. É interessante, dentro da discussão do pensamento sistêmico, como a gente acabou trabalhando dentro dessa teoria mesmo sem conhece-la.

Nós temos dois programas, um de alfabetização e outro voltado para pessoas com alguma escolaridade mas querem aprender mais. Somados, eles vão até a 4ª série primária, mas os alunos nos cobravam mais, então fizemos uma parceria com o Telecurso e duas turmas nossas já concluíram à 8ª série. Atualmente estamos sendo cobrados para fazer um curso de segundo grau, um dos alunos, que é um senhor de 48 anos, nos disse: “Eu não quero mais parar, quero fazer faculdade e ser engenheiro”.

Boletim ABDL –Como vocês fazem a seleção e capacitação de seus professores?

MJN – Meu trabalho sempre foi fazer a capacitação desses professores que, apesar de universitários, nem sempre recebem os aportes necessários. Fazemos um trabalho de formação continuada e um acompanhamento sistemático dos educadores com vistas à qualidade do trabalho. Nós não trabalhamos com voluntários, todos os nossos professores são alunos de graduação e recebem uma bolsa por seu trabalho. Como depois que eles se formam deixam de fazer parte do nosso perfil, todos os anos nossa equipe se renova. Essa é uma das que questões mais difíceis porque precisamos recomeçar o trabalho de preparação.

Até hoje, cerca de 100 educadores já passaram por nossa qualificação e a encaram como uma oportunidade de especialização na alfabetização de jovens e adultos, tema que não é muito discutido dentro dos cursos de pedagogia ou de licenciatura. Assim nosso projeto ajuda a ampliar as possibilidades desses educadores que passam a compreender a educação como algo maior.

Boletim ABDL – Quantas pessoas já passam pelo Zé Peão?

MJN – Até hoje, conseguimos alfabetizar mais ou menos 3000 operários dos 9000 que a construção civil emprega. É importante destacar que essa é uma categoria com grande rotatividade, os empregadores não costumam manter os mesmo funcionários por muito tempo, portanto as matrículas precisam ficar abertas o ano todo, mas isso está mudando.

Hoje os empregadores querem dar um caráter industrial aos seus negócios, dentro de uma proposta de qualidade total dos processos de construção e da redução do desperdício, que era muito grande nessa área. O objetivo é o barateamento dos custos e o aumento da competitividade, mesmo porque a classe média não está com esse poder aquisitivo todo. Isso levou a uma grande redução de mão de obra temporária e totalmente desqualificada, se antes as pessoas que saiam do campo tinham a construção civil como referência de trabalho, atualmente começam surgir exigências de escolaridade mínima. As equipes de trabalho também estão ficando menores e mais estáveis, de forma que os empresários possam investir na sua especialização.

Boletim ABDL –E qual o impacto do Zé Peão na vida das pessoas que vocês atendem?

MJN – Aqui e acolá a gente vai percebendo mudanças, principalmente em relação ao sindicato. Nossos ex-alunos passam a participar mais nas assembléias, muitos deles até contestam a direção sindical. Isso é bom, se estamos tentando tornar essas pessoas mais cidadãs, não faria sentido que esperássemos que elas abaixassem a cabeça em relação à direção.

Uma coisa interessante é que muitos de nossos alunos são migrantes sazonais, eles moram em suas cidades de origem mas trabalham em João Pessoa. Por isso nossas escolas funcionam de segunda a quinta e eles podem voltar para suas comunidades nas sextas, dessa forma atuamos indiretamente em umas 60 cidades. A gente procura conhecer as dificuldades dessas comunidades: se elas têm água, se tem posto de saúde, como é feita a coleta do lixo. Depois desse levantamento, selecionamos materiais que despertem alguma reflexão nos alunos, que ampliem as possibilidades deles contribuírem para melhorar as formas de convivência nesses locais.

Boletim ABDL – Quais os próximos passos do Zé Peão, como você vê o futuro do projeto?

MJN – O Zé Peão é mantido por um sindicato, por isso todos os anos nós paramos em outubro e nos questionamos se “vamos poder continuar existindo”. Nós dependemos totalmente dos recursos de outras entidades – atualmente captamos recursos junto a ONGs, temos uma pareceria com a CAFOD e uma linha de crédito do FAT –, porque o sindicato não tem arrecadação suficiente para manter um projeto desse porte. Nossa expectativa para o próximo ano é de continuidade do projeto, mas o sindicato sempre fica numa situação delicada porque não podemos voltar atrás, existe uma grande demanda por parte dos trabalhadores, hoje temos 17 salas instaladas que atendem cerca de 470 alunos. Também nos tornamos uma das referências em nossa área de atuação e a própria Unicef reconhece o projeto como uma iniciativa importante. Já promovemos oficinas para os professores.

O Zé Peão também tem sido convidado a ampliar sua rede de trabalho promovendo qualificação de professores do MST, do Educação Solidária, da rede municipal de ensino de João Pessoa. Eu trabalho com o Projeto Sal da Terra, que atua na educação de jovens e adultos da periferia, fazendo a ponte entre as metodologias do Zé. Nesses casos sempre procuramos desenvolver nesses profissionais entendimentos sobre educação que ultrapassem o mero adestramento aos códigos escritos promovendo uma visão sistêmica do papel da escola. Nós enfrentamos resistências muito grandes dos professores mais antigos, que foram formados naquela idéia do “professor que sabe tudo” e não querem repensar suas práticas.

21 de Outubro, 2002
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