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O Divisor que nos Une
A fellow Maristela Bernardo é jornalista e doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília. Foi assessora especial da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e é membro do Conselho Diretor do IEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil.
Em setembro de 2004, foi lançado o documentário ‘O Divisor que nos Une’, realizado pelo IEB e dirigido por Maristela Bernardo, que aborda os problemas relacionados à criação em 1989 do Parque Nacional da Serra do Divisor, onde viviam cerca de 500 famílias, e o papel do Conselho Consultivo do Parque, espaço de um rico processo de diálogo e crescimento coletivo na busca de respostas que, a um só tempo, considerem as necessidades ambientais, sociais e econômicas da região e do País.
Boletim ABDL: Qual o tema explorado em O Divisor que nos Une? Como foi possível viabilizar o projeto?
O tema do documentário é o Conselho Consultivo do Parque Nacional da Serra do Divisor e a maneira como ele acabou promovendo um encontro entre forças, lideranças, idéias, interesses e trabalhos já desenvolvidos na região do Vale do Juruá, tendo como foco a conservação ambiental e toda ordem de conflitos que giram em torno dela, especialmente os fundiários, sociais e políticos.
A relação do IEB com o Parque se deu por meio da aprovação de um projeto de apoio à implantação do Conselho, apresentado pela SOS Amazônia e pelo Ibama do Acre ao PADIS - Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional e Sustentável - realizado pelo IEB, com recursos do governo holandês. Na mesma região, o IEB apoiou também projetos em Mâncio Lima e Marechal Thaumaturgo, com várias atividades envolvendo ONGs, prefeituras e comunidades organizadas, a exemplo da aldeia Ashaninka.
O destaque maior é para o crescimento coletivo que o diálogo em torno da existência do parque promoveu na região nos últimos anos, de forma tal que a situação saiu do impasse total de quinze anos atrás (quando o Parque foi criado) para uma sinergia que aponta concretamente não apenas para soluções tópicas para aquelas pessoas diretamente atingidas pela criação do Parque (cujo exemplo mais dramático é o dos moradores da área protegida), como para uma visão de desenvolvimento local e regional com base na conservação ambiental.
Boletim ABDL: Quem são os protagonistas e qual o “pano de fundo” do documentário?
Há vários protagonistas nessa trajetória: ONGs que trabalham na região há muito tempo - a exemplo de SOS Amazônia, Pesacre e CPI -, ações do governo estadual a partir do momento em que a "geração Chico Mendes" chegou ao poder, a ação de pessoas do Ibama local; a nova percepção, por parte de governantes municipais, das potencialidades econômicas decorrentes da exploração controlada dos recursos naturais; e a existência na região de terras indígenas e reservas extrativistas, colocando continuamente em pauta, inclusive pela discussão de suas crises e percalços, a dimensão social da conservação ambiental.
A quinta reunião do Conselho, enfocada no documentário, foi especial por dois motivos:
1) foi a primeira realizada na borda do parque, na cidade de Marechal Thaumaturgo. Todas as anteriores foram feitas em Cruzeiro do Sul, a maior cidade da região, considerada uma espécie de "capital" do Vale do Juruá;
2) foi precedida de uma viagem de intercâmbio, da qual participou um grupo de conselheiros moradores do Parque que, por força de lei, terão que se mudar de lá, deixando para trás histórias de vida construídas, em alguns casos, ao longo de muitas gerações.
O intercâmbio fez parte de um conjunto de capacitações destinadas, entre outros objetivos, a dar a esses moradores plena condição de exercerem seu papel de conselheiros do Parque, com conhecimento e informações não só para se prepararem para a nova vida e defenderem seus direitos nesse processo, como para entenderem melhor o papel dos parques nacionais e de uma política nacional de conservação e interagirem com ela de maneira autônoma e consciente.
Assim, a Resex do Alto Juruá e a TI Ashaninka entraram no documentário não só como os lugares visitados pelos conselheiros mas como uma fonte de informações sobre gestão coletiva da terra, projetos de desenvolvimento sustentável e organização comunitária. A visita aos índios teve destaque porque, sem dúvida, eles detêm na região uma liderança alicerçada em seu discurso articulado, informado e consciente a respeito da conservação ambiental e da necessidade de solução econômica e social integrada para todo o entorno, ao mesmo tempo em que desenvolvem experiências sustentáveis em suas terras que podem servir de paradigma para a região. Na verdade, eles hoje estão aptos a capacitar os brancos para práticas sustentáveis, tanto econômicas, quanto sociais e culturais. O impacto da visita aos Ashaninkas para os conselheiros foi um ponto alto do intercâmbio.
Boletim ABDL: O Divisor que nos Une expõe uma complexidade de atores e de interesses em uma área rica em biodiversidade. No seu ponto de vista, quais são as principais virtudes e ameaças à sustentabilidade da região?
No passado, as maiores ameaças vinham das próprias práticas predatórias de caça e pesca dos moradores da região, assim como da ação de grandes agentes econômicos em desmatamentos de maior porte para investimentos ou instalação de infraestrutura sem maiores cuidados ambientais. Isso ainda existe – os rios estão muito ameaçados - mas mediado pelo crescimento da atuação de ONGs ambientalistas na área, políticas sustentáveis estaduais e maior circulação de informações, o que faz com que comunidades e autoridades locais já vejam oportunidades de crescimento econômico com base na conservação.
Atualmente, uma das maiores ameaças vêm das invasões, originadas no Peru, para a retirada ilegal de madeira, especialmente mogno, no território brasileiro. Uma política de concessões de áreas por parte do Peru, sem maiores controles ou salvaguardas, fez com que madeireiras estrangeiras se instalassem na área de fronteira e se utilizassem de mão-de-obra indígena e de outras populações da região para invadir o lado brasileiro, o que é facilitado pela existência de uma estrada peruana que acompanha a fronteira, sendo rota de fuga para todo tipo de tráfico. Na Terra Indígena Ashaninka, o avanço chegou já a trinta quilômetros. O Parque Nacional da Serra do Divisor também sofre essa pressão.
A principal virtude que vejo no Vale do Juruá, e isso é retratado no vídeo, é a cultura de diálogo e da transparência que se está firmando, como forma de viabilizar o desenvolvimento local e regional com sustentabilidade ambiental. É claro que ainda é frágil, depende de muitas circunstâncias, pode sofrer retrocessos, mas se os agentes públicos e entidades da sociedade civil assumirem pra valer compromissos com o processo que está ocorrendo na área, creio que todas as condições estão ali dadas para que se consolide uma experiência que pode servir de paradigma para o País.
Boletim ABDL: Como foi o período de filmagem do documentário? Há algum fato em especial que queira destacar?
O documentário não partiu de um roteiro pronto. Foi filmada toda a viagem de intercâmbio de um grupo de conselheiros moradores do Parque à Reserva Extrativista do Alto Juruá e à Terra Indígena Ashaninka, além da reunião do Conselho Consultivo, em Marechal Thaumaturgo, e de entrevistas individuais. Nosso propósito inicial era de registrar esses eventos. O documentário, tal como está, foi fruto de uma análise exaustiva de 38 horas de filmagens e de alguns pressupostos: privilegiar a fala direta das pessoas, tentar realçar o que de emblemático havia ali para demonstrar na prática o conceito socioambiental e suas implicações.
O Divisor que nos Une
Ficha Técnica
Direção: Maristela Bernardo
Fotografia e Produção: Bento Viana/Oikos Agência de Imagem
Edição: Elisa Castro
Duração: 40 min
Ano: 2004
Sobre o IEB e o PADIS
O trabalho do IEB busca contribuir com a formação de um modelo de crescimento equilibrado para o país, que tenha como base a utilização dos recursos naturais de forma sustentável. Uma das frentes de atuação da organização é o PADIS – Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional e Sustentável, que oferece apoio, com recursos do governo holandês, ao desenvolvimento institucional de organizações da sociedade civil e organizações governamentais que atuam juntas no enfrentamento de problemas ambientais e na implementação do desenvolvimento sustentável no âmbito local.
Por meio do PADIS, que está presente também em outras regiões do País, o IEB apoiou um conjunto de projetos no Vale do Juruá, no Acre, com enfoque socioambiental para as questões de conservação de recursos naturais. Esses projetos envolveram ONGs – a exemplo de SOS Amazônia, Pesacre e CPI Acre – prefeituras, como as de Mâncio Lima e Marechal Thaumaturgo, e comunidades organizadas, especialmente a Associação Apiwtxa da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, que é a aldeia dos índios Ashaninka.
Para maiores informações acesse o site do IEB:
www.iieb.org.br
As fotos aqui presentes são de autoria de Bento Viana, da Oikos Agência de Imagem, e não podem ser reproduzidas sem autorização. Entre em contato com a Oikos através do site:www.oikosimagem.com.br
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