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O clima na China, por Natalie Unterstell (fellow)




Discutir sobre mudanças climáticas hoje inevitavelmente recai na discussão sobre a 15a Conferência das Partes a se realizar em Copenhague no próximo mês. Mas sabemos que as incertezas sobre as mudanças climátivas vão muito além daquelas relativas ao acordo literário que poderá "chegar".

Em dia de clima tipicamente invernal de Novembro, propício a tomar um chá e ver pela janela a neve caindo nas ruas de Pequim, meus pensamentos voaram para uma cena da peça Esperando Godot. Mais precisamente, transportei-me para " Esperando um acordo global em Copenhague", algo que também parece nunca chegar.

Encontrei energia nova e muitas incertezas em solo chinês, junto a associates do LEAD do mundo todo, que reuniram-se em Pequim de 8 a 14 de novembro para articular reflexões coletivas e aprendizado concreto sobre adaptação, negócios verdes, tecnologia e mix energético do futuro.

As conversas foram muito além do status das negociações internacionais, porque os associates trouxeram experiências concretas em curso nos vários continentes. Inevitavelmente, fomos contaminados pelo entusiasmo dos chineses em relação às transformações do seu país rumo a uma economia mais carbono-eficiente.

Relato algumas das experiências abaixo.

- *Energia para desacelerar a curva de emissões*

Com uma turma de associates do LEAD Africa, Europa, China e México interessada no Mix Energético do Futuro , fui a campo conhecer exemplos do enorme programa de energia eólica e nuclear, e ênfase na eficiência energética, que a China lançou para desacelerar sua curva de emissões no sentido do recomendado pela ciência.

O resumo do que vimos seria o seguinte: as Olimpíadas de Pequim (2008) impulsionaram investimentos maciços em renováveis, com alguma captura de recursos via MDL. Tais investimentos talvez fossem feitos independentemente de recursos externos, sem qualquer adicionalidade em termos de redução de emissões (o que coloca corrobora as críticas ao próprio mecanismo).

Minimizar o esforço parece, entretanto, inadequado pois a China fez mais que botar turbinas eólicas pra abastecer o “ Ninho do Pássaro”. As turbinas eólicas da empresa que visitamos são feitas 100% no país, ou seja, criou as condições adequadas para o desenvolvimento de tecnologias energéticas limpas e eficientes (não dá pra arriscar dizer que de baixo impacto socioambiental). Aprovou em 2005 um marco regulatório para energia renovável, plugou a produção na rede com tarifas diferenciadas (grid) e ainda conquistou o povão, que acha as turbinas eólicas lindas. A prova mais concreta da popularidade dos cataventos é que são escolhidos como cenário para as fotos do álbum de casamento.

Até 2010, o marco legal que regula a produção e o consumo de energia passará por uma revisão, já que o compromisso de ampliar o consumo requer priorização de investimentos em algumas regiões geográficas (como o deserto de Gobi, tão ou mais distante que a Amazônia dos maiores centros de consumo de energia do seu país) e ajustes de preços (as tarifas de energia eólica hoje são o dobro da energia convencional).
E o próximo Plano Quinquenal tem como prioridade número um ampliar a oferta de energia nuclear, prioridade dois a de energia eólica e três a de hidroeletricidade.

- *Descarbonização como compromisso da China*

*Quando o presidente Hu Jintao fez seu discurso na Cúpula da ONU sobre Clima em 22 de setembro, impressionou o mundo ao anunciar o compromisso de reduzir o seu nível de intensidade de carbono de 2005 a 2020.

O Conselho de Estado da China, a 3a maior economia do planeta e que cresce 10% ao ano na base de carvão mineral, já tinha integrado metas de intensidade de carbono no último plano quinquenal de desenvolvimento econômico e social, o 11o desde o início do regime comunista em 1949 e vigente até 2010. *

*Na semana do Seminário Internacional do LEAD, o Conselho finalmente apresentou metas objetivas de descarbonização da economia (4% ao ano até 2020).

Nem mais nem menos importante que a meta geral, já havia o compromisso de aumentar a parcela de consumo de energias renováveis no portfólio para 15 por cento em 2020. Estabelecer uma meta de consumo (e não mais nem apenas de produção) implica efeitos de longo alcance sobre a sociedade chinesa já que apesar da grande quantidade de energia dedicada à produção de bens para exportação, na China o uso de energia per capita ainda é pequeno em comparação com a Europa, o Japão e os E.U.A.. *

Segundo a diretora do Programa Chinês de Escala para Renováveis, Wang Yinan, esse percentual de consumo ainda está subestimado, e a China facilmente chegará aos 30 por cento, se contabilizar o acesso a hidroeletricidade.

Faltam sim maiores incentivos ao desenvolvimento do mercado doméstico para energia solar (para saber mais sobre isso, visite Green Leap Forward http://greenleapforward.com/2008/06/17/solars-journey-to-the-west/ ).
Mas a China já se garantiu entre os maiores produtores de equipamentos para energia solar. Brasil, que tal uma parceria tecnológica com nossos amigos orientais?

Uma recente análise da Agência Internacional de Energia (EIA) mostra que a China pode retardar o crescimento de suas emissões muito mais rapidamente do que se pensa, graças a esse pacote de investimentos em energia limpa e eficiência energética. Segundo a EIA, as emissões da China podem chegar a
7,1 bilhões de toneladas em 2030, acima das 6,1 bilhões toneladas emitidas em 2007. Seria muito menos do que os 11,6 bilhões de toneladas anteriormente projetados.

- *Descarbonizar apenas ? A conta não fecha.*

O Seminário Internacional foi marcado pelo entusiasmo com a mudança de posição da China em relação a metas e investimentos em renováveis. A despeito disso, não se dissipou em mim e nem naqueles que participaram das discussões sobre o Mix Energético do Futuro a sensação de que “a conta do clima não fecha” apesar desses valiosos esforços.

Um dos momentos mais tensos do seminário, na minha opinião, foi a sessão de aprendizado em cima de cenários climáticos, liderada pela Shell. O enredo foi o seguinte: construir cenários plausíveis (e não necessariamente
desejáveis) para explorar o futuro do “ sistema global de energia”, reconhecendo que a demanda deverá crescer para atender os nove bilhões de pessoas que seremos em 2050. O pressuposto básico é que no curtíssimo prazo as emissões oriundas do consumo energético irão aumentar.

O líder da sessão nos pediu que registrássemos em papel uma "solução" para a crise do clima no cenário de atropelo (scramble). Em tom de brincadeira, eu indiquei a proposta do Governo do Equador de manter as reservas de petróleo do Parque do Yasuní no solo. Minha proposta foi escondida atrás de dezenas de outras.

Na lista de manifestos gerais, a certeza de que precisamos manter a energia das organizações da sociedade civil, da mídia e dos próprios indivíduos em torno de mudanças de comportamento. Também a necessidade de ter mais nações comprometidas, mais aporte tecnológico e financeiro ... tudo aquilo que o Mapa do Caminho de Bali se propõe a tratar.

Sabemos sim que a opção energética mais conveniente continua sendo os combustíveis fósseis, do ponto de vista da eficiência econômica (já que boa parte dos renováveis ainda dependem de subsídios) e tecnológica (partindo do pressuposto de que são tecnologias mais maduras que a tecnologia solar por exemplo).

O “ plausível” do ponto de vista da indústria, por assim dizer, é aceitar que não há falta de petróleo, gás ou carvão.

Não por acaso, a teoria de “ peak oil” foi desqualificada na sessão porque não considera que aqueles combustíveis fósseis fáceis de produzir gás serão esgotados, enquanto os unconventionals (de difícil acesso), tais como as areias betuminosas ou xistos, podem ser explorados com maior investimento em tecnologia e financiamento. Não é o tipo de combustível que acredito que deveria compor o mix do futuro, por inúmeras razões (algumas delas descritas no link a seguir em linguagem fácil http://oglobo.globo.com/blogs/fernandez/post.asp?cod_post=117828).

A Shell não considerou os cenários do IPCC possíveis. Tanto em um cenário de atropelo (scramble) quanto em um de caminho comum (blueprint) a produção dos combustíveis fósseis não é reduzida nem de leve até 2050. A produção de energia renovável não faz nem cosquinhas. Ou seja, que ainda que os investimentos em energia renovável sejam maiores hoje do que nunca antes e sejam absolutamente necessários, serão insuficientes.

A solução, embutida nos cenários, seria “ combinar uso de fósseis com soluções, tal qual o seqüestro de carbono”.
Ou seja, uma mudança leve no mix de energia do futuro, e uma solução torta para o nosso jeito de ser e existir.

Houve desconforto geral dos associates e fellows, com manifestos precisos em público sobre delegar a um mix tecnológico talvez mirabolante (e que de todo modo precisa de cara e coração por trás para se viabilizar) a responsabilidade pela segurança climática e sobre não se atacar a centralidade do desafio climático, que é o "petroholicism" (a devoção da porção mais desenvolvida economicamente do planeta pelos combustíveis fósseis).

Negociar com a indústria de petróleo (e suas adjacências) um ajuste ao cenário de emissões que fecha a conta precisa entrar na lista!

Esperando o quê?

Estamos todos esperando Godot: esperado um bom acordo em Copenhague; a mudança de core business das empresas petrolíferas; uma solução tecnológica mirabolante, e uma liderança carismática que nos guie pelo caminho da segurança climática.

O meu grupo de trabalho trabalhou intensamente sobre os pontos acima, chegando à conclusão de que o caminho do acordo climático global está marcado pela profundidade da crise sobre liderança para a segurança climática. Não conseguimos enxergar outro diálogo mais conveniente no grupo do que este, que atravessa os vários níveis de mobilização e imobilismo, passando inclusive pelas estruturas burocráticas internacionais.

*Por Natalie Unterstell. Cohort 14, LEAD Brasil*

14 de Dezembro, 2009
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