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De costas também para o mar
Eugenio Singer é presidente do Instituto Pharos, uma ONG que tem como missão defender o Oceano, promovendo o desenvolvimento humano da Região Costeira do Brasil, valorizando os aspectos socioculturais de suas comunidades e preservando o patrimônio histórico e natural por intermédio de práticas sustentáveis.
Formado em Engenharia Civil, Eugenio obteve o Ph.D. em Engenharia Ambiental e Recursos Hídricos pela Vanderbilt University. É fellow da primeira turma do Programa LEAD, lançado em 1991. Atualmente é também membro do conselho da ERM Brasil, uma das empresas líderes de consultoria ambiental no mundo.
O Instituto Pharos se propõe a melhorar a gestão de saneamento básico, banindo as "línguas negras" das praias, promover um manejo sustentável da pesca, mitigar os impactos dos derramamentos de petróleo e implementar modelos de agricultura e turismo não-agressivos ao meio ambiente e compatíveis com o desenvolvimento na região costeira do Brasil.
Boletim ABDL: Como surgiu a idéia de criar o Instituto Pharos? Algum fato específico o motivou?
A idéia do Pharos surgiu originalmente quando visitamos uma região costeira no Sul da Bahia, com cenário paradoxal: grande potencial de sustentabilidade e grande vulnerabilidade ao mesmo tempo. Lá, percebemos o que poderia acontecer se o processo de ocupação desordenada seguisse o rumo de Porto Seguro na Bahia, Bombinhas em Santa Catarina entre tantos outros locais no imenso litoral brasileiro. Reunimos um grupo de pensadores e entusiastas com a questão e fundamos o Instituto Pharos. Naquela instância inclusive, adquirimos uma propriedade que serviria de base para futuros projetos locais.
Boletim ABDL: Como você avalia o projeto de ampliação do limite da plataforma continental brasileira, levado à ONU pelo governo brasileiro?
É um projeto fundamental e que envolveu uma gama enorme de instituições de pesquisa, além da Petrobrás e Marinha do Brasil. No entanto, é necessário construir e preparar o campo para que os jogadores possam jogar dentro das regras definidas. Existe um grande despreparo das comunidades locais para receber os investimentos que advirão do turismo (PRODETUR), exploração do petróleo, pesca, e infraestrutura portuária. É necessário que as comunidades locais sejam fortalecidas, para que onde hajam investimentos hajam comunidades iluminadas e empoderadas para atuar no processo de tomada de decisão em consonância com a vocação local e com os princípios de sustentabilidade e do “triple bottom line”. A pesca tem de ser repensada e a exploração de petróleo deve ser cuidadosa. Alguns bons sinais já aparecem como a recente resolução CONAMA 350 para prospecção sísmica em águas marinhas.
Boletim ABDL: O Projeto Orla, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente em parceria com a Secretaria do Patrimônio da União, é capaz de tornar a gestão da Região Costeira mais democrática e participativa?
O Projeto Orla tem uma qualidade muito boa em relação às ferramentas de gestão para o ordenamento territorial da orla brasileira. Porém, como mencionado anteriormente, não pode ser fragmentado. Ainda não percebemos que se fragmentarmos o desenvolvimento urbano assim como fizemos com vários ecossistemas os resultados serão desastrosos. Assim como as bacias hidrográficas, não podemos desenvolver um município a jusante e desprezar o desenvolvimento de outro a montante. O desenvolvimento da Orla tem de ser orgânico, caso contrário todo o corpo deteriorar-se-á. O mesmo efeito de borda existente em outros ecossistemas se aplica aqui também. Um belo exemplo disto é a Baixada Santista. A cidade de Santos foi preservada e a pobreza foi exportada para os municípios vizinhos, como São Vicente, Cubatão e Guarujá. A situação destes municípios atualmente é insustentável. Os bolsões de pobreza ali existentes são praticamente irreversíveis. Quem quiser conhecer em pormenores visitem o Quarentenário em São Vicente.
Boletim ABDL: Você participou da primeira turma do Programa LEAD, há mais de dez anos. Apesar de hoje existir uma consciência maior em relação aos problemas socioambientais, estes ainda não são uma pauta prioritária nas agendas dos governos. Por que isto ocorre?
Apesar da retórica da transversalidade, a maioria dos Ministérios não atua interdisciplinar e transversalmente. Nem têm tanta culpa. A raiz do problema está no processo educacional ortodoxo. Nós não somos formados para entender os sistemas. Cada vez mais somos submetidos a mais especializações perdendo a noção do todo. O programa do LEAD insistiu por anos nesta linha: a de formar líderes. O programa tinha de ser construído a partir do conhecimento dos fellows e construído caso a caso conforme a realidade daquela turma e daquele país. Os resultados das primeiras turmas foram desestimulantes, removendo partes interessadas das turmas por pensarem diferente das metodologias propostas. Ao respeitar as pessoas, tudo é possível conseguir e foi o respeito mútuo entre os fellows e entre as turmas que perpetuou o PROGRAMA.Hoje, diferentemente de 10 anos atrás a comunicação virtual através da internet ajuda muito o processo, mas é necessário REVOLUCIONAR o sistema educacional, aprendendo para a vida e não dissecando a natureza em matérias nem sempre apetitosas de consumir. Há que se buscar o gosto em consumir cultura e conhecimento para aplicá-lo em prol de um mundo melhor.
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