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Fortalecendo negócios sustentáveis
Autor: Daniel Chang

Luiz Ros, fellow do Programa LEAD, é o atual diretor do Programa New Ventures. Economista, mestre em Relações Internacionais, Luiz foi diretor do Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) no Ministério do Meio Ambiente, onde gerenciava um orçamento de US$ 20 milhões para financiar projetos de tecnologia limpa, gestão de resíduos sólidos, agricultura orgânica, agroextrativismo sustentável, ecoturismo e áreas protegidas. Sob seu comando o FNMA atingiu performance ótima e eficiência maximizada, crescendo 74% no número total de projetos aprovados por ano (de 26 para 102).

O Programa New Ventures é uma iniciativa do World Resources Institute (WRI), que ajuda empreendimentos sustentáveis a potencializarem seu desempenho no mercado, concedendo-lhes apoio técnico na formulação de planos de negócio e aproximando-os de investidores interessados em investimentos rentáveis, baseados em critérios de responsabilidade social e ambiental. Presente na América Latina desde 1999, o New Ventures tem representações no México e no Brasil. As outras iniciativas são na Indonésia e na China, onde um dos parceiros é o LEAD China.

No Brasil, o New Ventures é sediado em São Paulo e dirigido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (CES-FGV), em parceria com o Banco ABN Amro Real.

O Programa New Ventures Brasil promoverá, nos dias 29 e 30 de novembro, o I Fórum de Investidores em Negócios Sustentáveis. O Fórum é um espaço de debate sobre cenários, caminhos e desafios relacionados à sustentabilidade no empreendedorismo brasileiro. Neste evento, investidores locais e estrangeiros encontram os mais promissores negócios sustentáveis do país, selecionados pelo Programa New Ventures a partir da ‘Chamada para Planos de Negócios’ encerrada em 26 de setembro último.





Boletim ABDL: Como você avalia esses 5 anos a frente do Programa New Ventures?

Luiz Ros: O programa New Ventures cresceu muito rapidamente nestes últimos cinco anos e passou de uma abordagem regional, no início de suas operações, para o modelo in-country adotado nos últimos dois anos. Nos três primeiros anos de operação, o New Ventures realizou Fórum de Investidores Regionais (Brasil, em 2000 e 2001, e México em 2002) atraindo empresas de diferentes países da América Latina e adotando uma estratégia bastante oportuna com foco nas empresas consideradas ‘low hanging fruits’ (melhor preparadas) nesses países.

O portfólio de empresas New Ventures inclui negócios não apenas no Brasil e no México, mas também na Argentina, Peru, Bolívia, Equador, Costa Rica... A experiência adquirida com o trabalho de apoio a pequenas e médias empresas sustentáveis na América Latina deixou claro que alguns países poderiam merecer uma atenção especial, dada à existência de um maior volume de negócios e investidores interessados em novos mercados como ecoturismo, tecnologias limpas, energia renovável, manejo florestal, entre outros (são considerados novos mercados aqueles em que bens e serviços são produzidos de forma lucrativa e geram benefícios sociais e ambientais).

Portanto, nos últimos dois anos o programa decidiu adotar uma estratégia de crescimento rápido nos principais países emergentes como Brasil, México, China, Indonésia e Índia. Hoje o Programa já está operando nos quatro primeiros países; no próximo ano, estaremos também na Índia. A estratégia de implementação do Programa esta assentado na idéia de criação de plataforma de negócios com parceiros estratégicos em cada um desses países. Dentre os parceiros estratégicos encontram-se o ABN-AMRO REAL, Fundação Getulio Vargas-SP, IFC-Indonésia, Confederação das Indústrias na Índia – Centro de Negócios Sustentáveis, Fundo de Meio Ambiente do México, Citigroup e Shell – China.

Boletim ABDL: A elaboração pelo IFC dos Princípios do Equador em 2002, sua crescente adoção por instituições financeiras tradicionais e outras iniciativas voltadas a internalizar em empreendimentos aspectos sociais e ambientais já podem ser consideradas como a mudança de paradigma da busca a qualquer custo pelo lucro financeiro para o modelo de negócio baseado no triple bottom line?

Luiz Ros: A recente adoção dos Princípios do Equador pelas principais instituições financeiras do mundo reflete de forma inexorável a força do consumidor global na sociedade da informação. A velocidade com que a informação circula no mundo moderno alterou profundamente o mundo dos negócios.

A pressão da sociedade organizada localmente, esteja ela no interior da Nigéria, Indonésia ou Brasil, sobre as grandes corporações financeiras e não financeiras, trouxe uma brutal complexidade à gestão da imagem corporativa. O risco das empresas terem suas marcas globais associadas a práticas não sustentáveis em suas operações locais fez com que a internalização dos aspectos sociais e ambientais se tornasse uma prioridade para muitas empresas globais. Gradativamente, essa pressão externa da sociedade tem sido assimilada pelas empresas e mais recentemente observa-se o fenômeno da transformação do risco em oportunidade de negócios.

O caso da empresa Natura no Brasil é exemplar desse fenômeno. Em menos de dez anos a Natura transformou radicalmente suas práticas de gestão e imagem corporativa, passando de uma empresa brasileira “tradicional” do setor de cosméticos, a um benchmark mundial na prática de gestão de recursos naturais, uso sustentável da biodiversidade e apoio às comunidades locais. A empresa construiu uma imagem global de sustentabilidade financeira, social e ambiental tornando-se um dos poucos exemplos concretos de triple bottom line no mundo corporativo nacional e internacional.

No caso das grandes corporações financeiras internacionais, a incorporação dos aspectos sociais e ambientais atuais, mediante a adoção dos Princípios do Equador, foi precedida pela incorporação de práticas de controle de lavagem de dinheiro (money laundry) igualmente importante na construção de uma sociedade sustentável.

Estes avanços na adoção de práticas sustentáveis terão impactos ainda maiores nas sociedades modernas, quando forem incorporadas por empresas nacionais (como a Natura) que respondem pela maior parte dos recursos financeiros e não financeiros transacionados nas economias locais. Portanto, a próxima etapa deve ser voltada à elaboração de manuais operacionais e protocolos que promovam a adoção desses princípios e práticas pelas empresas nacionais.

Boletim ABDL: Quais as características que diferenciam o empreendedor sustentável brasileiro? Como o país pode estimular um boom de empreendimentos deste gênero?

Luiz Ros: O empreendedor sustentável em diferentes países da América Latina e da Ásia, é aquele que já pensa o seu negócio e o lucro de sua empresa com os olhos da contribuição social e ambiental para a sociedade – o seu plano de negócio e a estratégia de implementação incorpora a responsabilidade social e ambiental!

Porém, é preciso destacar que este empreendedor ‘sustentável’ está sujeito as mesmas regras de mercado de todo e qualquer pequeno e médio empresário no país. Além disso, por operar em novos mercados, este empreendedor ainda sofre os desafios de muitas vezes não haver padrões técnicos definidos (produtos orgânicos, por exemplo), inexistência de linha de crédito nas instituições financeiras e ausência de marco regulatório setorial.

A promoção e o estímulo ao empreendedor sustentável passam necessariamente por medidas de estímulo ao crédito e gestão empresarial – comum a todos os pequenos e médios empresários – e também por estruturação do marco legal nas áreas de biotecnologia, energia renovável, tecnologias limpas, manejo florestal, ecoturismo, etc.

Países como Índia e China nos setores de energia renovável, tecnologias limpas e reflorestamento são exemplares do que pode ser feito em relação ao marco regulatório e incentivos financeiros para estimular setores ‘sustentáveis’.

Boletim ABDL: O New Ventures Brasil realizará o I Fórum de Investidores em Negócios Sustentáveis. Como foi a procura pelo programa? O que podemos esperar dos planos de negócios selecionados para este ano?

Luiz Ros: A procura pelo programa foi muito grande, o que demonstra o amadurecimento do mercado brasileiro e das diversas oportunidades de negócios sustentáveis no Brasil. Foram selecionadas 14 empresas (energia renovável, biodiversidade, reciclagem, entre outras) que estão sendo analisadas e passando por um processo intenso de mentoring com consultores especializados, buscando a melhoria dos planos de negócios destas empresas.

Ao final do processo, as empresas serão submetidas a uma banca de avaliadores (judges panel) que irá avaliar, sobretudo, o modelo de negócio, a capacidade de gestão e a relevância social e ambiental do negócio.

Durante o Fórum de Investidores a realizar-se em São Paulo nos dias 29 e 30 de Novembro de 2004, as empresas finalistas serão apresentadas aos diversos investidores presentes no Fórum. É o início do processo de match making entre investidores e empresários ‘New Ventures’. Após o Fórum de Investidores, o Programa New Ventures continuará a apoiar os empresários na busca por investimentos e melhoria dos seus planos de negócios. A proposta do New Ventures é de se tornar o aglutinador de negócios sustentáveis nos países em que atua.



Veja também:

New Ventures Brasil promove o I Fórum de Investidores em Negócios Sustentáveis

Princípios do Equador entram em nova fase

08 de Novembro, 2004
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