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A Indústria da Cooperação para o Desenvolvimento

Os paradigmas e contradições que permeiam o modelo da ajuda ao desenvolvimento dos países periféricos e o papel dos profissionais que colaboram nesse processo foram dois dos principais pontos levantados por Valéria Salles durante a palestra “Os Desafios da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento”, apresentada pela fellow da 4ª turma do LEAD no Fórum de Liderança ABDL do mês de junho. Valéria acumula passagens por diversos países da África sub-saariana – atualmente ela mora na Cidade do Cabo, África do Sul – onde trabalha como consultora e facilitadora de processos participativos em projetos de desenvolvimento há vários anos.

Como outros de sua geração, seu envolvimento com as causas socioambientais começou através da militância nos movimentos ecológicos da década de 80. Os motivos que a levaram a desempenhar um papel mais ativo, contudo, foram de cunho bastante pessoal. Mãe ainda muito jovem, começou a criar interesse pela medicina natural e pelos modos de vida alternativos, pois, segundo ela, a maternidade “obriga a pensar no bem estar das gerações futuras”.

O que surgiu como uma busca pessoal foi, aos poucos, tomando o caráter de atuação sistemática até que Valéria, depois de uma série de viagens, se fixou na cidade de Poços de Caldas (MG) onde ajudou a fundar o Partido Verde local e começou a desenvolver atividades de controle ambiental e o Plano Diretor para o município. Em 89, ela daria a virada em sua vida ao completar um treinamento em planejamento participativo junto à Cooperação Técnica Alemã (GTZ). Durante o curso, Valéria se descobriu como facilitadora – profissional que procura auxiliar grupos em processos de tomada de decisão –, trabalho que vem desenvolvendo junto a entidades dos mais diversos países desde então. Posteriormente, seu trabalho com metodologias participativas acabou a aproximando do LEAD na qualidade de palestrante para a 2ª turma. Esse contato despertaria o interesse que levou à sua participação na 4ª edição do programa.

É a partir de suas experiências pessoais com o modelo de desenvolvimento que vem sendo promovido pelos organismos multilaterais e demais grandes financiadores internacionais – entidades que controlam o grosso dos recursos voltados à realização de projetos de desenvolvimento nos países pobres – que Valéria questiona os benefícios do que chama de “indústria do desenvolvimento”. Por conseqüência, muitas das questões levantadas também se aplicam aos profissionais que, como a própria palestrante, dedicam suas vidas trabalhando pelo desenvolvimento e superação das desigualdades.

O problema, segundo ela, começa ainda nos documentos que fundamentam as políticas adotadas pelos principais organismos internacionais de fomento. Mesmo uma leitura desatenta desses textos revela que o paradigma defendido neles considera o crescimento econômico como única via para o desenvolvimento dos países pobres. Além disso, consideram que a melhor forma de incentivar o crescimento das economias nacionais é integrá-las no livre mercado global através da promoção de reformas que criem ambientes propícios para tanto. Portanto, os organismos internacionais procuram favorecer através de suas linhas de financiamento programas e projetos que, na sua avaliação, acelerem o andamento de tais reformas.

Além dessa agenda, nem sempre visível em projetos e programas específicos, Valéria também aponta toda uma série de contradições no campo da colaboração internacional. A mais conhecida das quais – bem como a de maior impacto direto – certamente é o uso de regras diferentes aplicáveis aos países ricos e pobres no que diz respeito à abertura de suas economias para o mercado global; enquanto os primeiros adotam políticas protecionistas e de subsídios que beneficiam seus setores menos competitivos, os segundos são constantemente pressionados para abrirem suas economias.

Outra prática que contradiz a retórica das organizações multilaterais, destacada durante o Fórum, diz respeito à forma como tais organizações se relacionam com os governos que elas se propõem a ajudar. Por um lado, um dos princípios de ação dessas organizações é o fortalecimento das instituições governamentais; por outro, não é raro assistir aos mesmos organismos financiarem a redução da presença do Estado e o crescimento de diversos tipos de organizações não-governamentais (nem sempre independentes) que substituem o governo no papel de fornecedor de serviços sociais para a população.

Segundo os financiadores, isso acontece porque alguns governos não são confiáveis no gerenciamento de recursos o que, na prática, vem promovendo um solapamento ainda maior da capacidade de ação governamental, já em situação precária. No caso do continente africano de modo geral, isso vem se refletindo nas organizações da sociedade civil trocarem, paulatinamente, o papel de grupos de defesa e representação de interesses para assumirem a função de prestadoras de serviços em áreas onde o estado atue de forma precária ou mesmo onde os organismos financiadores não querem que ele atue. Isso caminha em paralelo com a crescente internalização de um discurso gerencial de padrão internacional por parte das organizações locais ao mesmo tempo em que elas perdem seu caráter de atuação política.

Não é de surpreender, portanto, que tendo sua atuação definida por parâmetros externos surjam discrepâncias entre a realidade local e a atuação das ONGs. A fellow considera, por exemplo, que o fenômeno do crescimento recorde nos índices de violência e criminalidade entre os homens na África do Sul é influenciado pelo fato dos projetos desenvolvidos pela sociedade civil local serem esmagadoramente voltados para as mulheres, justamente para se adequar aos estereótipos dos financiadores externos.

Reforçando essa tendência vem o fato de que as organizações da sociedade civil africanas não costumam ter histórico como organizações de base, na grande maioria dos casos elas são criadas com o objetivo explícito de captar dinheiro internacional sendo, portanto, inspiradas diretamente nas expectativas dos organismos internacionais que procuram formas mais administráveis de investir seus recursos do que investi-lo em ações governamentais. “Por isso elas perderam muito do caráter de mobilização por objetivos e partiram para uma consolidação institucional baseada na gestão eficiente e na capacidade de demonstrar impacto através de indicadores mensuráveis”, informa Valéria.

A partir dessas considerações sobre o modelo do qual ela mesma faz parte, Valéria questiona o papel dos chamados “profissionais do desenvolvimento”, ou seja, aqueles especialistas em questões ligadas ao desenvolvimento que são pagos pelos financiadores para dar apoio técnico ou avaliar a atuação de grupos locais. Segundo a palestrante, no fundo, o que os financiadores procuram através do envio de tais especialistas é conformar a realidade local aos padrões de gestão que eles exigem – mesmo nas ocasiões em que não é enviado um time de especialistas, esses padrões vêm de fora. Se por um lado é importante que existam alguns padrões de transparência, por outro muitas vezes se gasta tempo demais com administração e se perdem de vista os objetivos. “O que acaba acontecendo é que o gerenciamento se torna um fim em si mesmo”, reclama.

Toda essa situação despertou em Valéria um questionamento profissional sobre a validade de sua própria atuação que pode ser estendida a todos aqueles que trabalham, como ela, pela promoção do desenvolvimento de comunidades locais. Para evitar o perigo de que tais profissionais acabem por se transformar em peças involuntárias num sistema que tenta perpetuar as situações contra a qual lutam, a palestrante propõe a constante desconstrução do próprio trabalho, com algumas perguntas diárias. “Será que eu quero me tornar dispensável ou imprescindível? Se eu quero me fazer necessária, estou criando apenas mais dependência, portanto essa pergunta é fundamental. A outra é: Eu faço desenvolvimento em nome de quem? Até que ponto a participação é somente formal ou realmente desenvolve as pessoas?”, questiona.

Outro aspecto desses questionamentos diz respeito à direção que esses profissionais do desenvolvimento querem dar a realidades que consideram injustas, e em que velocidade isso deveria acontecer. Para a Valéria não há nada de intrinsecamente errado em querer que uma sociedade mude, mas é preciso sempre manter em mente até que ponto é ético influenciar sem simplesmente impor uma ideologia externa. Retomando suas experiências em países africanos, a palestrante fala sobre os diversos tabus que pesam sobre as mulheres e as obrigam a trabalhos pesados, bem como sobre o poder dos chefes de família de obrigarem suas filhas, em muitos casos crianças, a se casar com quem eles definem. “Eu quero que isso mude, mas ninguém tem o poder de fazer isso acontecer. Gente vai morrer e sofrer para que mude, num processo que deveria ser encabeçado pelas lideranças locais; passar por cima desse processo de desenvolvimento local foi o que os EUA tentaram fazer no Iraque”, desabafa.

Um dos problemas centrais, portanto, é que essa indústria do desenvolvimento, que segue uma lógica gerencial baseada na eficiência e nos resultados rápidos, não chega às comunidades que querem transformar com uma visão de longo prazo, mas tratando logo de instalar programas que são verdadeiros “pacotes fechados de desenvolvimento” os quais as pessoas que deveriam ser beneficiadas não influenciaram e nem se sentem representadas. Ainda assim, espera-se que essas sociedades reajam em uma velocidade industrial. “Nós, os trabalhadores do desenvolvimento, chegamos em bando, falando inglês, em uma aldeia do interior da África, sabendo as fórmulas da democracia e do desenvolvimento, e ainda ficamos surpresos que as comunidades não reajam positivamente ao que temos a dizer”, finaliza.

apresentacao_valeria.pdf (em pdf)

Leia artigo de Valéria Salles sobre Combate à AIDS em Moçambique

04 de Junho, 2004
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